O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

21.2.03  

Anteontem. Estava eu chegando na faculdade – um pouco atrasado como é de praxe – pra mais um dia de pura magia do mundo do cinema, quando atinei, melhor, quando trombei com um improvisado show-room de equipamentos de segurança em uma daquelas tendinhas brancas de armar, bem ao estilo “polígono de segurança” – que é onde os policiais daqui ficam pra se proteger bem protegidinhos do Rio de Janeiro enquanto escolhem o próximo veículo cujo dono vão achacar. Havia máscaras contra gases tóxicos com filtros cambiáveis, agasalhos anti-chamas – você até se protege do fogo, mas morre de qualquer maneira, esturricado com o calor sobre-humano que faz dentro deles –, capacetes, luvas e tudo mais que se pode precisar pra trabalhar com o máximo de segurança – só perdendo pros policiais cariocas. No meio de tudo aquilo, sei lá eu por que, tinha uma mesinha com vários potes de vidro cheios de líquido e um funcionário sonolento por trás. O cara nem se levantou quando resolvi ir lá ver o que era aquilo; sem relação aparente com o resto da exposição, ali se encontravam, dentro dos frascos, várias coisas mortas em conserva – digo coisas porque nem tudo se podia entender o que era. Mas, num deles, eu enxerguei um troço que não se podia confundir: bem branquinho – não sei se aquela cor é branco; antes transparente – bem fofinho, lá estava um bebê pela metade. Um bebê, não um feto. Sete meses. Imediatamente aquilo me impressionou. Eu nasci de sete meses e, pelo que minha mãe me disse, menor que aquele humanozinho fatiado no pote. Foi talvez uma das coisas mais bizarras que já vi; não fosse a cor, ele pareceria vivo, tal o estado de conservação; todo certinho, cheio de detalhes, as unhazinhas, as veias, as feições – alguém poderia inclusive dizer “é a cara do pai”. O fato é esse: formado. O que mais me chamou a atenção foram os cabelos; a criança era bem cabeluda, um monte de fiozinhos ruivos, e, conforme se balançava o pote – sim, diabos!, eu fiz isso! – era triste ver seus cabelos se alvoroçarem como algas no formol enquanto ela nadava com movimentos delicados de seus bracinhos, e, depois, ficarem lambidos quando sua cabeça emergia do líquido, que nem quando a gente é criança saindo da piscina. Da linha da cintura pra baixo, tudo o que aquele serzinho infeliz tinha eram uns pedaços de tripas acizentados que ficavam ondulando como plantas num aquário grotesco, com vontade própria. Prefiro não descrever como era a vista por debaixo do vidro. Mas, ainda assim, o bebê era lindo. De verdade; se fosse meu filho eu ia ficar todo bobo. Fui embora pensando que aquela quase-vida devia estar ali envelhecendo há mais tempo do que tinha tido oportunidade de viver, e que, se bobear, era ainda mais velha que eu. Não consegui prestar muita atenção na aula nesse dia. Ainda bem que hoje tiveram o bom senso de recolher aquilo dali.



posted by franciscoslade 1:02 AM