O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

19.2.03  

Continuando a série revival iniciada outro dia, vou postar um troço que eu escrevi numa de minhas idas e vindas com minha primeira namorada, lá pelos meus 20 anos; às vezes acho meio cafona; outras acho sincero. Em última análise, geralmente dá no mesmo.







MAIS OUTRO PASSAGEIRO







O som dos passos de um homem, bem como a profundidade de suas pegadas, quer no solo úmido de sua própria história, quer na mais reles sorte de pavimento em que se possa fazer um ou outro, não pode de forma nenhuma precisar o quanto realmente pesa o tal sujeito. Muito embora, pra olhos e ouvidos treinados, tais sinais sejam suficientes pra calcular a massa dos músculos e ossos de alguém, eles se mostrariam totalmente ineficazes pra avaliar o peso que carrega – somado ao seu próprio – quem vai, compassadamente, fazendo soar seus caminhos.

Cada homem leva em sua mente, como fosse esta um coletivo, uma horda de passageiros, que vão, ao longo da vida do tal tipo, embarcando desordenadamente. Sim, muitos deles desembarcam e ficam pra trás, é verdade. Mas há também aqueles que pra sempre tomam um lugar no tal coletivo: se dirigem ao ponto final. E lá vai o coitado, ao mesmo tempo torcendo contra e esperando que em sua cabeça seja ultrapassada a lotação máxima pra, finalmente, chegar ao seu inexorável destino.

É bastante variada a natureza desses passageiros; dívidas, dúvidas, doenças físicas ou psicológicas, desejos. Em alguns casos, há também aquela chamada consciência. Há ainda muitos tipos, mais até do que eu sei – mas não citarei nenhum outro pra não ser prolixo. E, é claro, cada indivíduo se faz acompanhar de suas versões particulares de cada um desses passageiros.

Pois bem, já há algum tempo tenho trazido comigo uma questão pra qual não tenho resposta. E que assim, sem que possa me deixar, cada vez mais torna cativo seu assento na dita lotação.

Primeiro sua influência era pequena e ela pouco me importunava. Mas sem que eu atinasse, eis que a cachorra cada vez mais vinha afagar-me o pensamento, até que, quando dei por mim, já estava, a tal, instalada comodamente em minha casa, dividindo a cama comigo, me tirando o sono. Como um parente distante, de quem nunca se têm notícias até que bata a sua porta: Eu vim pra ficar!

Pois é. E o pior é que após tanto desse convívio, todo o meu esforço pra resolver essa questão só serviu pra melhor formalizá-la, e, no processo, torná-la ainda mais pungente.

Tão forte ficou que me instiga a cada instante e já não posso mais sequer trabalhar. Como apresentá-la? [Aqui titubeio, tenho até certo receio de torna-la ainda mais próxima à mim.] Bem … Meu problema é o seguinte: garoto bobo, experimentei o amor muito cedo; não tão cedo que não pudesse aperceber-me de sua natureza, e, decerto, muito cedo pra que eu tivesse defesas contra esse tipo de sentimento.

Ah!, e era da pior espécie, esse amor; piegas, relutante a princípio e, súbito, arrebatador… Não era de maneira alguma nobre – antes o contrário: bem retratado estaria em qualquer fotonovela romântica, mesmo nas mais baratas, como aquelas que colecionam as domésticas mais sonhadoras. Era até de tal forma simples e sem glamour, que não é difícil encontrá-lo esmiuçado nas mais rasteiras letras de canções bregas, que nem por isso – ou exatamente por isso – têm quaisquer qualidades artísticas. Aliás, esse tipo de amor também pouco tem de artístico. O do artista é outro, mais complexo, mais bonito, sofisticado… e um tanto mais superficial também. Esse de que falo, esse de que fui acometido não é, nem pode ser, intelectualizado. E não porque não se possa explicá-lo, mas justo porque ele nada deixa à imaginação: é claro, óbvio, sem subterfúgios.

Dessa forma, quando, pelos desígnios dos humores humanos (inclusive o meu!), fui forçado a procurar outra receptora/doadora pra continuar alimentando meu vício, deparei-me com uma triste novidade: não havia candidatas apropriadas pra mim!

Claro que havia algumas interessadas em partilhar comigo o próprio amor; não se trata disso, de rejeição. O problema é que minhas pretendentes dispunham de outras – inúmeras – espécies de amar, mas não da que eu precisava. Descobri ainda que pouquíssimas pessoas conhecem o tal amor que eu sentira quando novo. Nada tenho contra o que sente cada um; os outros gêneros de amor não são piores ou melhores do que o que senti; só não são o mesmo.

E, assim que percebi que carregava comigo algo inusitado e incomum, estabeleceu-se por fim a tão falada questão: seria esse conhecimento dádiva ou fardo?

Isso que nasceu em mim, será um câncer ou um par de asas?

...



posted by franciscoslade 2:38 AM