O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

16.2.03  

Minhas aulas começam amanhã. Interessante, não? Enfim, nem me sinto muito chateado, mas, de certa forma, isso me faz lembrar de como era esse dia tão peculiar – o último domigo antes das aulas, algo como um superlativo do já tão custoso domingo ordinário – quando eu era criança. Nesse clima:





PEQUENA FÁBULA DA PERTINÊNCIA







E chegaria, ao fim da tarde. Uma dessas tardes róseas, com tons de realismo fantástico que celebram o júbilo da individualidade, exultando e justificando toda e cada existência, isoladamente; dessas que fazem hesitar minha disciplina.

Chegaria, encarapitado no dorso de algo altiva montaria, eu, embrulhado em nem já tão cintilante couraça, envolto numa puída mas vistosa capa. E, ao que um provável sentinela gritasse “Quem vem lá?”, responderia prontamente com algum nome que fosse talvez garboso e que melhor soasse quando precedido, como seria à época, do título que me fizesse cavaleiro – ou de qualquer outro que possa acaso me acompanhar.

Chegaria. Mas o tal sentinela ainda perguntaria:

– E quem é este outro, soturno e cabisbaixo, encolhido sobre si mesmo? Este outro cujo semblante não se vê, mas se advinha terrível, e que de forma também terrível sibila asperamente ao respirar? Quem é este, tão escuro? Quem é, que veste já a noite?

Nem por um segundo desfaria meu sorriso vão e resignado, cristalino, lapidado ao longo de anos de andejo (e talvez aí o ostentasse ainda mais, com um pesar que ao sujeito decerto pareceria escárnio); limparia a garganta empoeirada e diria em tom informativo: “Este aí, também sou eu. Um eu constantemente expurgado, porém sempre presente. É a minha consciência e também meu cansaço. É minha vergonha, minha urgência. É meu descaso.”

– Mas – retrucaria o simplório – não vos é penosa tal companhia? Por que não o deixastes pelo caminho? Muitos o fazem!

– É verdade. Mas é ele quem não me deixa! Não tenho escolha.

– E porque não o desafiais, porque vós não o matais?!

Nesse momento, provavelmente estacaria o olhar nos meus flancos desprotegidos; perceberia bem definidos talhos, profundamente sulcados à lâmina, como bocas, outras bocas, cuspindo com desdém o precioso líquido escarlate, obstinada e levianamente.

E, enquanto eu parecesse murchar, meu companheiro ajeitaria a coluna, revelando seu verdadeiro porte – muito mais majestoso que o meu.

– Tentei, podes ver. Mas a cada golpe meu, ele se fez mais forte, e mais escuro. E tem, a cada batalha nossa, o olhar mais denso. Já não consigo sequer encará-lo…

Sem muito ponderar, o vigia voltaria o rosto para trás na direção da enorme e imponente porta, e, com um aceno seu, algum outro guarda daria início ao pesado processo no qual, trabalhando lentamente, roldanas, correntes e rodas dentadas fariam com que essa mesma porta se fechasse. Depois, em meio ao barulho exacerbado – mesmo considerando a distância que nos tinha o mecanismo –, o sujeito diria elevando a voz acima da balbúrdia:

– Não podeis passar. Não há lugar para vossos tipos aqui. Ou para outros como vós. Dai, por favor, meia volta. O deserto vos acolherá novamente! – E dizendo isso, pousaria a mão, furtivo (ou imaginando sê-lo), sobre o cabo da espada ordinária…

Depois de suas palavras se terem dispersado no ar eu faria, sem mais, a volta e ouviria baixo o som dos cascos do meu cavalo, levantando poeira lentamente, mesclar-se ao grunhir do reticente engenho ativado para me manter longe. Em instantes o poderoso estrondo de toneladas de ferro e madeira se chocando contra o solo, selando de vez a entrada do mundo para mim, traria consigo, finalmente, a noite.









posted by franciscoslade 11:34 PM