O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









Livros publicados

Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

0




Para ler também

A menina no deserto
Recheio de quê?
Malandro é o gato
Prosa Caotica
Wry
Pariscope Blues
Encefalopsia
Suum cuique
moca
Verborrágica
bináriogeral
ainda ela
Natureza complicada
mundoestranho
Paralelos


Arquivos




This page is powered by Blogger.

















Seu dinheiro de volta!

15.2.03  

PRIMEIRO POST



Bom, eu não sei direito como começar esse troço. Vou puxar uma do baú – tomara que cole...



BALDEAÇÃO



Eu voltava de Ouro Preto. Sozinho. Deviam ser três, talvez quatro da manhã – não, pensando melhor acho que era mais cedo –, e eu estava em alguma rodoviária ordinária de Minas, nessa hora em que esse ambiente já agudamente ordinário se permite ter ressaltadas as qualidades que o fazem assim. Sentava-me em uma daquelas estóicas e tão tristonhas cadeiras, que justamente, e por falta de opção melhor, são alcunhadas cadeiras de rodoviária, dispostas em suas resignadas e não menos tristonhas fileiras. Me achava mais ou menos isolado do resto dos meus circunstanciais convivas de insônia. É possível que voltasse de outro lugar; pra falar a verdade, não me lembro exatamente. Nem sei porque resolvi escrever isso. Acho que é pra não esquecer. Bem, estava ali fazendo alguma baldeação, num domingo de madrugada, voltando ao Rio pra dormir poucas horas e trabalhar na manhã seguinte. Muita luz, aquelas fluorescentes, muito brancas (verdes), e algum barulho naqueles botecos de rodoviária.

Um a cada três fileiras de assentos, estavam, presos no teto – uma melancólica armação de metal – e meio esquecidos como todo o resto do lugar, alguns monitores de tevê. Econômicas 14 polegadas. Era fim de ano e ia lá uma restrospectiva das notícias mais “importantes” daquele, que era um dos últimos anos do século XX. Eu esperava e esperava e, por vezes, olhava o troço. Lá pelas tantas – eu não ouço a chamada da máteria – aparece um desses pássaros marinhos, todo coberto de óleo, óbviamente nas últimas; ele está no colo de um sujeito, em suas mãos, pescoço caído, vergado, muito plástico, como uma rosa murcha, um cabo de guarda-chuva; o monocórdio locutor, de voz tão conhecida (domingos de noite amarela e sonolência, reminiscência pueril), acaba de falar algo que pretendia sério e emocionado, um alerta; de repente sobe o som da cena, a câmera vai pro rosto do cara – um biólogo, imagino; ele chora. Copiosamente. Muito mesmo. Olha o que fizeram!, olha o que fizeram! Olha… Antes de dar por mim, meus olhos já estão marejados. Faço esforço pra não ir além.

Penso que foi a coisa mais sincera que eu já vi. O sujeito- não falava com a câmera, com público; ele se dirigia ao cameraman, ao repórter, não acreditava, queria ver se eles podiam, se eles sabiam como, por que. E eles lá, filmando tudo, numa obra paralela àquela cujos espólios documentavam, calados; grande matéria!

Um homem precisa compreender o mundo em que vive. Mas acho que sou dos que também não entendem. [resolvi escrever isso ][é pra não esquecer.]













posted by franciscoslade 2:59 AM