O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

15.3.03  

Depois de uma semana de muito trabalho, stress na faculdade e três horas de sono por noite, parecia que a noite de ontem seria uma redenção. Nem quis sair – na verdade não tinha condições. Sai da produtora da vez, fui à natação e corri pra casa pra dormir. Cheguei, comi, tomei banho, li poucas páginas e finalmente ia dormir; encostei a cabeça no travesseiro e o sono veio rapidamente. Acho que já estava dormindo quando começei a afundar num líquido espesso que me tomava as narinas e depois os pulmões e o sono; levantei sobressaltado e sem poder respirar, entupido não sei de quê – não estou resfriado nem tenho alergia à nada – e fui ao banheiro tomar ar e tentar assoar-me até o muito pouco que saía, e que era só um muco que de forma alguma poderia ser o motivo de tudo aquilo, começar a vir estriado de vermelho, me informando que um dos pequenos vazos do meu nariz havia resolvido desistir de ser empurrado pra fora pela minha agonia. Voltei pra cama convencido de que aquele não era o caminho. Tentei, juro que tentei. Mas o que me veio à cabeça foi um retrospecto da vida da minha insônia, justo como dizem que acontece com a nossa própria história quando nos sentimos na iminência da morte. De certa forma fazia sentido: meu sono, se sentindo perto do fim, relembrava todas as duras batalhas travadas pra chegar até ali. Primeiro, eu era uma criança que, sempre que deitava, diferente das outras, possuidoras de um sono instantâneo, demorava pelo menos uma hora até cansar de virar na cama e dentro da minha própria cabeça e finalmente deixar que se fechassem meus olhos. Na adolescência, essa situação perdurou até os dezesseis ou dezessete anos, quando as saídas noturnas em rítmo industrial – como só um adolescente pode agüentar – aliadas à bebida e as bolinhas me permitiram dormir como um canalha. Fora o cansaço, era uma mistura tão grande de álcool, soníferos e anfetaminas, inibexes, lexotans, valiuns, e ainda benzitrats, olcadis e tantos outros que eu nunca soube o nome – porque tava muito doido pra perguntar – que o cérebro já tinha acabado quando eu ia dormir – ou caía por aí. É engraçado: tinhamos um amigo filho de médico que nos descolava receitas azuis e abria as portas mágicas de todas farmácias à nossa curiosidade quase – porque não? – científica. Experimentávamos com afinco e método todas aqueles pedacinhos coloridos de principios ativos dedicados a doenças que não tinhamos, em busca – por isso científica – do que de mais estranho nos pudesse ocorrer à mente. Depois descobrimos que a brincadeira toda era mais perigosa que parecia, e os anos de drugstore cowboy se acabaram. Eu ainda dormi bem por três ou quatro anos, até que o trabalho começou a ficar cansativo demais e a passagem do tempo e a falta de sentido do mundo começaram a me incomodar ainda mais – e eu, inocente, nem sabia que isso era possível. Lá se foi o sono outra vez. Mas tudo bem, a gente vai levando. O que não dá é não dormir depois de uma semana como a última; tive que recorrer ao velho amigo Valium. Ainda assim foi difícil (eu tomo um Lexotan e assisto Tarkovsky sem muito problema), e mesmo com a droga e o corpo inteiro doendo até latejar, ainda tive que esperar ums quarenta minutos olhando pro teto. Tá ficando tudo cada vez mais complicado.

posted by franciscoslade 7:09 PM