O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

20.3.03  

Então começou. Eu tô ouvindo, começou mesmo. Acabei de ver na TV umas imagens de Bagdá amanhecendo – tinha até uns passarinhos cantando engunato pipocavam uns estalos que a Ana Paula, a Padrão, disse que eram as baterias anti-aéreas iraquianas. Vim pra cá escrever e continuei a ouvir os estouros e o staff de apresentadores e 'especialistas' da Globo cuspindo aquele tipo de coisa de eles costumam cuspir. Paro um pouco e vou dar uma olhada e agora quem me aguarda na sala é o Bush, com seu olhar vítreo de olhos apertados e opacos. É ridículo; ele está sendo penteado por uma mulher que ajeita o cabelo dele com a mão que nem nossa mãe quando temos 5 anos e encara o nada, ponto nenhum no espaço, que nem um zumbi. Está prontinho pra cuspir maiores besteiras e mentiras que as da Globo – se bem que nem se pode saber... –, sentado na exata posição em que estará quando falar. Justo como se aguém apertasse um botão: é só a boca dele que vai se mexer – ah, é verdade, tem também os olhos, que se fixarão no teleprompter. Acabo a linha e vou lá dar uma olhada. Ligaram o boneco e o discurso é extamente o que qualquer um imagina, liberdade e afins... Impresionante como o Bush parece o Alfred Newman, ou, então, alguma caricatura de presidente americano da própria MAD, um presidente de um filme B ou de história em quadrinhos, com sua cabeça grande demais e seus ombrinhos acanhados dentro do terninho de ombreiras bem encaixadinhas. Hitler, com quem este senhor se parece mais do que imagina, ao menos, era um grande líder.



Já briguei seriamente com várias pessoas por dizer que o atentado ao WTC foi – com apossível exceção da Isabelle Adjani – a coisa mais bonita que já vi na vida. Mas realmente, fora a beleza plástica da coisa, é ainda mais impresionante ver o quanto de história pode-se cristalizar num momento, se condensar em ação – que é o que toda história foi um dia, mesmo que nos pareça chapada demais num livro. Digo isso sem juízo de valores, sem ser pró ou anti-americano; apenas é estarrecedor que um homem tenha enxergado essa possibilidade ao mesmo tempo artesanal e virtuosística de ataque, e que tenha feito, apenas por decidir fazer e imagiar como, história bruta. Tudo isso que ocorre agora, o que pode acontecer também a Líbia, ao Irã, a Coréia do Norte, tudo que pode acontecer como reconfiguração do mundo, o fim da ONU, a confirmação de que ela já era uma palhaçada há muito, a francofobia e as freedom fries, tudo, vem de 11 de setembro, do 11 de setembro. É claro que pode ser que isso não dê em nada além de morte de iraquianos e os EUA fazendo o que quiserem por aí – mas só por agora. Esse tipo de processo, ainda que seja, como parece infelizmente, de reafirmação do império vigente, não pode ser interrompido e nem abreviado. Volto à questão do gesso e do braço, lembram? Pois é. Se inicia um movimento histórico e as possibilidades são infinitas. De qualquer forma, alguma coisa vai mudar; se esboçam novas aglomerações de interesses, talvez surjam novos pólos de poder nesse mundo sem contraponto que se estabeleceu depois do fim da Guerra-fria. Quem sabe mudam as estruturas de poder em franco processo de obsolescência que se configuraram depois da segunda guerra? Faz mais de dez anos que elas só esperavam que alguém as soprasse. Foi o que fizeram, com beleza clássica e ecomômica, aqueles aviões de11 de setembro.



Ao meu ver, dentre os três pousos da águia romana, esse é o mais catastrófico culturalmente. E o menos glamouroso também, mas isso não importa. O importante, ainda que eu não viva pra ver isso, é que ela sempre levanta vôo rumo a outras paragens, não? Ou isso ou o Homem acaba. Taí a graça de tudo. O ser humano precisa sempre ir em frente e, por pior das pernas que estejamos, parar está além de nós. Em frente até, um dia, acabar. As pessoas morrem e sangue não se estanca: é disso que é feita a história, de homens mortos. As famílias dos que ficaram no WTC que me perdoem, mas algo maior que elas começou aquele dia e, não importa onde, vai chegar a algum lugar.





posted by franciscoslade 1:45 AM