O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

21.4.03  

SALA DE NÃO-ESTAR 2



Estava lá sentado havia um tempão, pensando em qualquer coisa que já não lembro, quando um dos rapazes veio falar comigo. Como eu tinha a cabeça noutro lugar, não percebi que se aproximava e, só quando ele me cutucou, o enxerguei. Minha primeira reação foi um leve susto: não tinha um rosto e seus olhos não tinham cor. Quer dizer, decerto tinha olhos e um rosto, mas eles eram indefinidos; seus traços, boca, nariz, seus cabelos, tudo lá e, no entanto, eu não poderia pensar numa só palavra pra descrevê-lo. Era um rosto genérico e nenhum adjetivo lhe cabia. Lembrei que ainda não tinha escrito isso; o que eu tinha criado dele não precisava de uma cara e faltava agora determiná-la. Dei-lhe olhos castanhos bem escuros pra que me pudesse encarar, e no rosto, sob aquela expressão desafiadora, estruturei traços firmes e angulosos que pudessem sustentá-la com vigor. Como o que o tom que ele assumiu pedia:

– Então você é quem inventa todo mundo aqui? Engraçado; você não me parece muito diferente da gente.

Nisso me ocorreu que todos eles eram só palavras depois de um travessão, fluxo de pensamento, sensações, metáforas, idéias que eu quis passar, e que eu teria que repetir o processo de dar forma pra cada um deles que me viesse falar. Espero que não venham; me deixem em paz!

– Mas me diz, por que você me faz esperar tanto? O que é exatamente que deveria acontecer, o que é que eu espero? Melhor, essa porra vai ou não vai acontecer? Porque eu já tô ficando de saco cheio, e depois, quatro anos talvez seja tempo demais no fim das contas…

– E você acha que eu sei? Você acha que se eu escolhesse isso mesmo, eu permitiria que você falasse assim comigo? Todos vocês vivem fazendo o que querem… é tolice achar que eu determino tudo. Além do mais, você acha que também não estou esperando? Eu bem que podia me encostar naquele carro com você e o seu amigo… A verdade é que eu não sei. Eu não sei se vai acontecer.

Agora quem se espantava – e muito – era ele; parecia não acreditar no absurdo que eu dizia.

– É só isso: eu não sei. E não quero essa responsabilidade.

– E o que que eu faço? Pelo menos me diz se eu tô indo bem!

– Eu não posso. Sei o quanto você quer escutar isso – é tudo que eu quero também, acredite; alguém que me dê um tapinha nas costas e me diga Você existe, você está fazendo uma boa escolha… ou então Tudo vai dar certo. Mas eu não posso.

A cara que ele faz com suas recém-definidas feições me desconcerta; ele ameaça perdê-las no meio de tanto desamparo.

– Olha, presta atenção, o que eu posso te dizer é essa foi a minha opção também; tenta esperar… se depois for em vão, não vai mais importar… não é?

– …

Ele se vira cabisbaixo e vai se encostar no carro com o amigo. Eu fico aqui em silêncio, tentando entender o que aconteceu. Sinto nascer um rombo abjeto no estômago.



posted by franciscoslade 3:01 AM