Agora é o outro rapaz que se desencosta do Galaxie e vem falar comigo. Como eu vejo ele vindo, já vou-me ocupando de dar-lhe um rosto e um olhar próprios antes que chegue; os olhos são negros e o rosto um pouco redondo, o maxilar largo e bem desenhado. Ele tem a expressão mais tranqüila que seu amigo.
– Você quer também um nome? – pergunto assim que ele pára próximo a mim.
– Não, acho que não. O fato de não ter rosto também não me incomodava, mas obrigado mesmo assim.
– O que você quer?
– Não, na verdade eu vim pedir um favor pelo meu amigo: eu fico pensando se você podia dizer pra ele que ele tá fazendo tudo certo, sabe?, mesmo se não for verdade…
– Como assim? Simplesmente inventar?
– Talvez…
– Olha, o seu amigo é um cara muito difícil. Ele é bastante razoável, mas tem problemas pra se comunicar e isso complica as coisas… Não sei por que escrevi ele assim; acho que na verdade eu sou mesmo parecido com ele… Enfim, você é um cara mais tranqüilo, melhor pra conversar. Senta aí.
[senta-se no chão, ao meu lado]
– O que tentei dizer pra ele foi que eu não sei precisar o que vai acontecer com nenhum de vocês – da mesma maneira que eu não sei o que vai me acontecer –, e que eu não posso ser… leviano… e simplesmente mentir. Não posso porque não quero.
– Sim, mas você pode determinar. Você escreve o que quiser.
– Não é tão simples… se eu escrevesse o que quisesse, eu seria Joyce ou Machado de Assis… O fato é que vocês são estudos: pode ser que lhes aconteça qualquer coisa, inclusive que eu não tenha mais o que dizer ou testar através de vocês e não lhes retome nunca; pode ser que eu nunca mais escreva. Pode ser que eu lhes ache indesculpavelmente chatos, ou me ache – e nesse caso dá no memso –, acabe com tudo e vocês só terão existido na minha memória – não se enganem, ninguém aqui vai lembrar de vocês amanhã. Se eu escrevesse o que quisesse, não precisaria fazer experiências… deve ser fabuloso ter controle daquilo que se cria, e, sobretudo de como se cria…
Outra coisa é que esse tipo de conforto, de segurança, não existe; você acha que eu não queria que viesse alguém e me dissesse que vocês existem fora de mim, que vocês são boas idéias? No fundo é o que toda e cada pessoa no mundo quer, a segurança da existência de deus – engraçado que eu escrevo assim, com minúscula e o word imediatamente me diz que eu estou errado –, uma certeza ao menos, que seja firme e inabalável, pra saber que poderia valer a pena passar pela vida e pelo eu que por acaso nos coube; saber, alías, que não existe acaso, pois deus é antítese do acaso, que tudo tem um motivo de ser e uma explicação plausível, um desencadeamento perfeitamente lógico. Mas não tem, e quanto mais as pessoas se dão conta disso, mais desesperadas ficam, até morrerem, na dúvida absoluta. Imagina só, o que seria descobrir que não estamos irremediavelmente sós até o fim; seria como se nos afagassem os cabelos enquanto dormimos… A vida, mesmo a de vocês, não é assim. Eu não posso lhes oferecer isso.
– Não sei nem o que dizer… Você não acha que tem alguma responsabilidade por nós?
– Eu apenas escrevo vocês. Não quero essa responsabilidade. Eu não quero ser deus. Lamento. Aí é que tá: eu também sou um personagem, pra mim e pra vocês, uma imagem especular, e se eu não controlo vocês, como vocês vão me controlar? Se eu estiver confuso, como é que vocês vão me ajudar, me dizer que tá tudo bem? Entendeu a relação? Estamos todos no mesmo barco. Todos na frente do espelho tentando conversar sozinhos. Agora, só agora, eu entendi que sou igual a vocês. Por isso estou aqui, sujeito ao julgamento de vocês também. Fatalmente todos virão falar comigo, todos vocês; meu próprio purgatório.
– Eu tenho que pensar nisso tudo.
-– Você é muito paciente… sempre pensa nas asneiras que eu e seu amigo lhe falamos…
– É… Que coisa né?
[ele se levanta e vai começar a andar]
– A propósito, você já reparou que tem buraco no seu estômago? Tá dando pra ver do outro lado…
Começa a fazer frio. O troço cresceu mais desde a última vez que eu olhei.