O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

3.5.03  

Outro dia, quando tava acontecendo toda aquela confraternização lá no Blogauti, li o arremate de um papo entre o Marcelo, anfitrião da festa, e o Marquito, como eu, um dos convidados; eles falavam fluentemente sobre o quão altruista alguém pode realmente ser e de como isso afeta o conceito do herói verdadeiro. Não sei nem porque falo disso, todavia, por tanto quanto me foi dado enterder de heróis – e, acreditem, é muito pouco; não sou herói, nem da minha própria história – imagino que tal relação não exista. Me parece mais o contrário: não quero parecer muito partidário de Nietszche na minha exposição, mas é uma questão de vontade; enxergo que o herói precise ser justamente o mais egoísta. O herói é o sujeito que impõe movimento a alguma questão, seja ela palpável ou moral, seja matar um tirano, um dragão, ou mudar um ponto-de-vista corrente. Na vida, pra se impor movimento, é preciso uma coisa somente: vontade. Quanto maior for o poder dessa vontade, quanto mais dele puder sobreviver à equação [(vontade) - (vontade antagônica)] x [(discernimento) x (oportunidade ou momento histórico)] – sendo que, no meu entender, o valor dessa última variável, oportunidade, dificilmente é algo que não esteja compreendido entre 0 e 2, porque, se fosse maior, a coisa aconteceria sozinha, um movimento natural, e não precisaria de um herói e, se fosse menor, o resultado seria o mesmo que zero: burros n’água –, maior é a capacidade do sujeito fazer girar a roda – qualquer que seja ela. Eu não sei d’onde diabos eu tirei essa ridícula equação e sei que é provavelmente a coisa mais estapafúrdia que eu já escrevi, mas ela deve servir pra ilustrar o que eu penso, se encaixando tanto em heroismos históricos como nos “menores” – quero dizer aqueles que não mudam o curso das coisas, mas são igualmente importantes, como salvar uma vida. A questão é que essa vontade pode nascer de muitas coisas – crenças religiosas ou morais, vingança, ódio, amor – mas ela é sempre de quem a tem e motivada por algum processo ocorrido dentro dessa pessoa, e quanto mais prioridade e paixão forem empregadas no cultivo dessa vontade, mais potente ela será. A paixão – que pode até nascer ou morrer no amor, mas nada tem a ver com ele senão o fato de ter um sujeito precedendo um objeto e, portanto, ser egoísta – é precisamente a coisa mais egoísta do mundo. E é também o nome da maior vontade que o Homem pode conhecer. Pra se ter vontade há que se acreditar em algo que se vê, e o ponto-de-vista é uma criação especular; ainda que determine o mundo inteiro, vive dentro do indivíduo. É próprio. Único, pessoal e intransferível. Na realidade, nem importa que vontade seja essa, o amor incondicional ao próximo, o ódio obtuso ao judeus, uma revolução, salvar uma pessoa de um incêndio ou um gatinho no alto de uma árvore; ela é projeção de uma necesidade pessoal e, por isso, egoísta. O lado bom disso é justamente que o egoísmo não – necessariamente – precisa de testemunhas.



O Marquito tem razão quando diz que é impossível narrar um episódio de total altruísmo – esse valor abstrato, católico, romântico, falso e tão bonito. Pelo menos pra mim, realmente é. Mas, dissociando-o do altruísmo, posso narrar um ato verdadeiramente heróico. Em nada que ele contradiz tudo o que eu disse acima, pelo contrário; mostra a beleza que um egoísmo pode ter – pois que existem os feios e o belos –, a beleza de se ter uma convicção até o fim.



O meu pai tinha um amigo chamado Eugênio. Era uma espécie de ídolo pro meu pai, de estatuto. E também o era aos meus olhos de criança. Eugênio era bem-sucedido, inteligente, bonito e generoso. Bom, foi o que ficou dele e o que eu via.

Em mil novecentos e oitenta e acho-que-sete, houve um grande incêndio aqui no Rio; repercutiu por todo o Brasil com suas imagens chocantes de pessoas se atirando das janelas: o incêndio do Edifício Andorinhas. O Andorinhas era um grande prédio comercial muito antigo, cheio de salas pequenas e corredores exíguos, fiações antigas e nenhuma segurança. Um belo dia, o Andorinhas pegou fogo. O troço começou lá pelo meio da construção; quem tava em baixo desceu, quem tava no meio se fodeu. Quem tava no alto ganhou algum tempo pra pensar numa saída. O Eugênio, que trabalhava lá e estava mais pro alto, conseguiu, junto com outras pessoas, fazer um buraco na parede e escapar pro prédio vizinho. Podia ter acabado aí. Mas ele arranjou um extintor e resolveu voltar pra achar mais gente que pudesse precisar de ajuda e levar ao tal buraco. Foi, achou dois caras, usou o extintor e tirou-os de lá. Tava bom, né? Não. Ele achou por bem ir de novo; penso que tinha ouvido algo na primeira incursão. Disseram pr’ele não ir, não dava mais, mas ele chegou à conclusão que dava sim. E lá foi ele com o bujão. Achou, se não me engano, uma senhora e uma criança: descarregou o extintor. Mas já não era fogo de extintor. Acabado o incêndio, quando acharam o Eugênio, não era mais ele. Eu acho que sua mulher não viu nem soube, mas tiveram que serrar o Eugênio, que era mais carvão que gente, pra fechar o caixão. Preciso dizer que não houve velório?

Eu era muito pequeno e o troço me impressionou muito. Não conseguia entender porque ele tinha voltado. De novo! Será que ele não entendeu o que acontecia? Mas ele não era ‘tão inteligente’? Será que ele não pensou na esposa e naquele garotinho um pouco mais novo que eu que ia ficar sem pai?



Hoje eu entendo. Ele fez porque quis.





posted by franciscoslade 12:54 AM