O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

22.5.03  

SINAL DOS TEMPOS



Hora do rush. Estava eu, depois do trabalho, indo pra faculdade pela segunda vez no dia, pensando que, se ir àquilo lá uma vez é dose, imagina duas. Contava quantas dessas terças e quartas-feiras de tripla jornada me separavam das férias de apenas uma – a de trabalho. Contava também quantos minutos me separavam de meu fatídico destino, procurando saber qual o tamanho do meu atraso e lamentando o fato de que seriam todos eles, os meus minutos, passados numa lata-de-sardinha da linha 426-usina-copacabana, que era mais como um romance do século dezoito, em que se tornava impossível saber onde começava um indivíduo e terminava o outro, só que em versão gang-bang-orgia século vinteeum. E, naquela promiscuidade que é sobretudo moral, o pensamento mais distante que me ocorria era a possibilidade de levar um tiro durante a aula da noite. Do meu lado, ia uma mocinha mais ou menos da minha idade com a expressão de enfado semelhante à minha. Estavamos tão colados que comecei a ficar enjoado de seu perfume – e a imaginar se lhe incomodaria o cheiro do meu dia de trabalho. De qualquer forma, era tal a disposição das pessoas ali, que mesmo ela sendo bem bonitinha, o desajeitado contato entre nós era bastante incômodo. Bom, é claro que eu me regalava com o fato de não passar a mesma situacão com um operário suado; mas era só. Da janela da sala, só se o cara atirar de propósito: a subida do morro é pro lado de lá… se bem que tem a PM… e aqulela viatura na porta?, se rolar um tiroteio ali, batata!, pum, bem na minha cabeça… mas se eu sentar no fundo, o prédio do lado me protege… ih, nessa aula eu tô cheio de falta… melhor sentar na frente pra fazer um conceito com o Márcio. Só que produção é dose… cara, que sono é esse? se bobear, eu durmo e aí o sujeito me reprova de vez… De repente, tocam a campainha e, ao meu lado, o estalo da cordinha contra o teto engordurado do ônubus me desperta de meus questionamentos tático-curriculares: é a menina que vai descer, levando seu perfume adocicado demais e sua loirice de perua. Me desloco o que me é possível pra facilitar sua descida e, TCHUM!, quequiéisso?, não é que a menina me tasca a maior mãozada na BUNDA? Surpreso, olho, mas ela já tá mais na frente. Só quando vai sair é que ela me dá um sorrisinho rápido e debochado. E desce. Eu ficoque nem bobo até acabar a viagem dois pontos depois.



Tá vendo? Brincadeira, né? Quer dizer, não que o troço me incomode, nada disso; é até bom pro ego e coisa e tal. Mas, e se fosse eu que passasse a mão na bunda dela? Tava arriscado levar um tapa na cara e, além de ser humilhado com lições de moral, de ser acusado de misoginia, ainda ter que encarrar a reprovação nada discreta do resto de ônibus… Isso se não resolvessem me linchar, o que eu sempre acho bem possível… Com a sorte que eu tenho… Nem quero entrar em discussões mais complicadas sobre o “papel da mulher emancipada na sociedade” e sobre o que exatamente elas querem dizer com “igualdade”; mais simples e mais sintético que isso,



QUERO MEUS DIREITOS! TAMBÉM QUERO PASSAR A MÃO NA BUNDA!



[…e não ser chamado de machista e grosseirão por causa disso.]



posted by franciscoslade 12:22 AM