O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

14.6.03  

PALHAÇO!



Boa noite. Acredito que todos vocês que hoje me assistem, tanto aqui na platéia como nos milhares de lares por todo o país, me conheçam muito bem. Ou julguem conhecer… Aliás o show dessa noite – e será um show muito diferente! – é mesmo sobre isso. Antes de mais nada, pra que possa chegar onde pretendo, é preciso que eu me apresente. “Mas nós já te conhecemos; você é Lamberto Lamar, o maior comediante do Brasil, conhecido em mais de 20 países!”, dirão vocês. Não é bem assim. Essa noite, enquanto riem à exaustão, vocês conhecerão Lamberto, o homem por trás do riso.

Minha primeira lembrança é exatamente essa: o riso. Desde que eu era muito novo, o riso me acompanha. Não posso precisar quando ao certo me dei conta disso, mas me recordo vivamente de meus pais rindo de mim quando mal acabava de aprender que eu era eu. E eles riam de tudo o que eu fazia. Sei que é natuaral os pais rirem das descobertas de seus rebentos, e aquilo não me espantava nem incomodava de jeito nenhum. Quando comecei a conviver com outras crianças, percebi que o riso não morava na minha casa, mas se extendia também ao maternal da Tia Teteca e a onde quer que eu fosse. Minha infância foi inclusive muito feliz; me acostumei a viver sempre num ambiente leve e alegre e todos gostavam muito de mim. Até ali, parecia que a realidade das coisas era só essa – e em nada que ela me desagradava!

Foi só um pouco adiante que consegui entender que o motivo de tanta graça era eu. Eu! Comecei a perceber que tinha alguma espécie de dom e que fazia os outros rirem a todo momento. Não importava o que eu fizesse ou dissesse, o resultado era sempre o mesmo: gargalhadas e mais gargalhadas. AHAHAHA era tudo que o mundo me dizia. Eu não tinha nenhuma espécie de controle sobre aquilo, era completamente alheio a minha vontade. E o pior é que atinei que eu não tinha graça nenhuma. Não contava piadas, não fazia trocadilhos, não tinha tiradas brilhantes e respostas na ponta da língüa e era a pessoa menos carismática que se pode imaginar. De fato, não havia – e não há – o menor motivo pra se rir de mim. Até meus traços são sem graça, os mais comuns, os mais corriqueiros. Meus gestos não são engraçados e não sei fazer caretas. E eu sou tímido.

Compreendi que se não importava o que eu dizia, era porque as pessoas sequer me ouviam, tão ocupadas que estavam em rir de mim. Comecei a não falar mais nada. Pra quê? As palavras não transpassavam a barreira do riso… Só a minha chegada já era uma alegria sem fim. Riam, riam todos!

Conforme eu ia crescendo e mais situações sérias iam surgindo, mais o troço – engraçado agora há pouco eu ter chamado de dom: é antes uma maldição –, mais aquilo ia pesando e ficando insustentável. Na escola, até os professores riam. Com as meninas era uma desgraça. Uma vez, num enterro, só faltou o morto rir. Nem mesmo o padre, ouviram bem?, nem mesmo o padre se segurou. Eu já não aguentava mais o riso dos meus pais. Assim que acabei o segundo grau, resolvi sair de casa. Contudo, não tinha pra onde ir. Me faltava um amigo; mas se ninguém realmente escutava o que eu dizia, como ter um amigo? Muita gente gostava de mim – afinal eu sempre fui o espírito da festa –, mas eu não podia suportar a convivência com essas pessoas. A grana que eu tinha acabou em menos de um mês de hotel barato e junk food. O que eu ia fazer? Por acaso fiquei sabendo de um teste de novos talentos pra tevê. A partir daí, nem lembro direito o que houve; o sucesso foi meteórico, tudo acontecia muito rápido, contratos, dinheiro, fama e audiência extratosféricas. Shows internacionais… Nesses, o público ria ensandecidamente mesmo sem entender uma palavra do que eu dizia – quando dizia. Na verdade, se não faz diferença pra quem me vê o que eu falo, tampouco faz diferença pra mim quem não me ouve. A relação é a mesma. Em qualquer parte do globo.

O sucesso aumentava. As pessoas queriam estar perto de mim – não, que idiota!, elas queriam estar perto do grande comediante Lamberto Lamar.

Não demorou muito, eu, que nunca tivera uma namorada, comecei a ser um estouro com as mulheres. E como elas se divertiam comigo… Também, o que mais poderiam querer? Fama, status, dinheiro e, ainda por cima, boas risadas. Mas elas só queriam estar do lado da celebridade, não do homem. Assim, esse desconhecido foi se arrastando pela vida, sem sentido e sem significado; é só isso na verdade, uma luta semântica, tentar dizer, tentar significar alguma coisa.

Eu acabava de arranjar outra prisão; além de viver constrito dentro dos limites da minha maldição, agora estava reduzido – talvez até ampliado, mas isso não faz a menor diferenca – ao que o público, essa entidade tão abstrata mas também tão onipotente, onipresente e cruel quanto o Deus do velho testamento – e de estatutos ainda mais rígidos –, construia sobre a pálida base de Lamberto Lamar; a esse personagem que prescinde do homem para existir.

E, fique sabendo senhor comediante, que esse homem inexistente sabe que seus shows são horríveis, que muitas vezes já presenciou o senhor arrancar lágrimas de alegria da platéia com um simples ‘boa noite’, e mesmo ficar duas horas em silêncio no palco, apenas assistindo às pessoas se contorcendo nas cadeiras, rindo até estourar. Nunca, nunca!, uma só piada saiu dessa sua boca que passou quase a vida toda calada.

Além disso, nesse show de hoje, o mais prolixo de toda minha curta carreira – riam, meus caros, riam –, saiba que eu vou acabar com isso, vou me libertar do senhor e libertar o senhor também desse inferno que foi construído a sua volta. Eu vim aqui, nesse show em cadeia nacional só pra isso. Não agüento mais. Eu espero que, pelo menos dessa vez, alguém ouça o que eu estou dizendo. É agora o grande momento; e atenção… [BLAM!]



[Alguns instantes de silêncio apreensivo. Depois explodem com violência as palmas e os risos. Mais uma vez, a platéia gargalha.]



posted by franciscoslade 11:40 PM