O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

15.7.03  

NÃO SEI COMO CHAMAR ESSE POST



Tinha escrito esse aqui pra um concurso de contos. Não ficou muito bom e eu tive que mandar outro mais antigo que me pareceu melhor. A verdade é que eu tenho dificuldade em escrever de 'encomenda'; fica forçado, perde a sinceridade, não parece eu. Mas resolvi postar mesmo assim. Se alguém gostar, os cometários são pra isso...



CONTO SEM NOME E SEM VIDA



1

Foi no ônibus que ele viu pela primeira vez. Quer dizer, não que nunca tivesse olhado; só não tinha visto. Morava longe mas sempre passou por ali, a vida inteira – e mesmo que isso não fosse muito tempo, já tinha sido mais do que o bastante pra ele conhecer direitinho aquela parte da cidade: a incrível quantidade de rocha maciça desafiando o azul, mas num desafio lânguido, pacífico; o dorso da pedra ensolarado; o céu, que compreendendo o elogio que é aquele desafio, esforça-se por baixar, roçar a barriga no cume do morro. Também o mar, refletindo o tom do azul e salpicado de barquinhos que, mesmo coloridos, parecem sempre muito brancos sob o sol. Tudo na memória. Talvez até por isso, por já ter tudo na cabeça, tenha parado de olhar de verdade. Mas agora…



2

Já fazia seis meses que ele estava trabalhando numa locadora de vídeo na Urca. Desde então, passava por ali de manhã e a noite; duas vezes, todo dia, sem olhar. Daquela vez, voltava mais cedo – não era seu dia de fechar a loja – e o trânsito estava leeeento toda vida. O engarrafamento parou o ônibus um pouco depois da descida do viaduto, no finalzinho da praia de Botafogo. Ele recostou a cabeça na janela e ficou olhando pro próprio rosto no vidro engordurado pelo sono de alguém que, em outra viagem qualquer, voltou do trabalho naquele mesmo lugar. Eu odeio esses acentos que ficam bem onde a janela não abre – e passeava os olhos ali pelo seu nariz, de vez em quando pelos olhos, quando reparou, lá atrás da sua orelha esquerda, uma pedra, depois a outra, o Pão de açucar. Ficou bobo, assim, como se fosse uma novidade. Não se via muito bem o cartão postal, imerso no escuro que estava, contudo, o quadro pareceu-lhe ainda mais bonito: as árvores em primeiro plano, depois o poço de noite embaixo da noite, os barcos já cinzas boiando no nada e, sobretudo, aquele monte de luzes espalhadas por todo canto, dando a cada pedaço da paisagem uma cor diferente. Tão impressionado ficou que, com licença, com licença, desceu do coletivo pra ver melhor. Não percebeu, mas quando conseguiu tirar os olhos da vista e carregar seu espanto consigo lá pras bandas da Praça Onze, onde morava, já não havia mais engarrafamento.



3

No outro dia, quando acordou, a imagem lhe veio logo à cabeça. Compreensível: tinha ido dormir com ela exatamente ali. Se arrumou apressado e saiu. Na viagem pro trabalho, andava mais rápido do que a condução, corria o caminho com a memória na tentativa de abreviar o trajeto que o separava do redescoberto Pão de açucar. Ia calculando o quanto faltava, e, quando o ônibus entrou na Praia de Botafogo, pôs a cabeça pra fora pra ver melhor: era mesmo impressionante. Olhou pros demais passageiros no ônibus, que olhavam casualmente a vida, um no relógio de pulso, o outro nas pernas da moça no banco ao lado, a moça no próprio decote, ela e o cobrador. Tinha até um senhor lá na frente que admirava a paisagem também, mas com uma expressão distante demais pra que estivesse vendo o mesmo que Luís via.

Ah, é mesmo, que distração a minha, esqueci de apresentar-lhes antes: ele se chama Luís, mora na Praça Onze, em um quitinete emprestado por um parente e o que ganha mal dá pra pagar o condomínio e as contas. Luís se considera um artista por conseguir fazer compras com o que sobra. As passagens ele paga com vale-transporte, mas, às vezes, quando eu vejo que o trocador é gente-fina, passa por debaixo da roleta e troca o vale por dinheiro. Geralmente, indo pro trabalho, Luís pensa na sua família que não mora mais no Rio, foi pro interior do estado, e que, quando dá, ele vai visitar, mas sempre menos do que sua saudade gostaria. Por vezes ele pensa também, durante viagem até a Urca, que queria ter uma namorada, que eu já tô com dezoito e nunca tive uma.

Mas, naquela manhã, nada disso lhe veio à mente; o que ele pensava era como todo mundo passa por ali todo dia e não fica boquiaberto. Ele trabalhava contando as horas pra poder encontrar o Pão de açucar de novo e ver se ele entendia mais um pouquinho o que era aquilo. Ficou achando que tinha que fazer alguma coisa com aquela sensação que lha acometia quando ele descia o viaduto e saía na praia. Agora ele ia a pé até lá, e, só depois de um longo período de contemplação, é que pegava o ônibus pra casa. Pensou que podia desenhar o troço, mas não, eu mal sei fazer uma linha reta; então que tal escrever? Mas Luís brigara com as palavras já havia algum tempo: tinham tentado se aproximar, porém um nunca compreendia muito bem o que o outro queria dizer e eles acabaram decidindo, num acordo tácito, por uma separação amigável. Vez ou outra encontravam-se num livro de sebo, numa revista, mas era só. Chegou à conclusão que a melhor coisa que podia fazer era fotografar. E como é que eu vou comprar uma máquina? Isso, fora filme, revelacão. Curso. Só se eu roubar uma câmera… não, do jeito que eu sou, acabava preso; o Pão de açucar ia virar só uma foto na parede da cela e ia doer mais que ajudar… Luís estava apaixonado e não sabia como expressar o que sentia. Desejou ser mais inteligente, pra poder entender as coisas melhor, ter mais tempo, mais dinheiro.



4

Contudo, hoje, além de angustiado, Luís está irritado; já faz quase um mês que a paisagem ganhou um novo elemento: uma pessoa que vem toda noite, exatamente no mesmo horário que ele, e fica, naquele outro banco lá longe, invadindo seu quadro. Se fosse uma vez ou outra, eu nem me importava, mas todo dia! E resolve que, chega!, vou lá falar com ele! Aproximando-se, vê que se trata de uma mulher. Ela é bonita, quase tanto quanto a vista. Ele vacila um pouco. Mas, num rompante, anda até ela:

– Com licença, mas você vai continuar vindo aqui todo dia?

– Como? Quem é você?

– Isso não importa. O que você tá fazendo aqui?

– Ora, a mesma coisa que você: olhando a loucura que é essa vista. Dia desses, eu tava passando de ônibus e me dei conta de como isso aqui é lindo… essas luzinhas todas… Por quê?

Quem é essa menina pra falar assim do meu Pão de açucar? Indigna-se:

– Só que esse é o meu lugar! Se você quiser olhar, vai procurar outro canto pra ficar!

– Se eu quiser, eu fico aqui. Todo dia. E você não tem nada a ver com isso.

– Ah, agora é demais! Vai embora! Não volta, ninguém te quer aqui!

– Mas…

– Vai embora!

A outra, assustada, resolve ir mesmo:

– Vou só porque você é muito chato, viu? Grosso! Mal-educado! – e vai embora limpando os olhos.

Luís espera ficar feliz. Não consegue. Pensando bem, conclui que agiu como criança. É que ele não sabe falar com as moças; sempre mete os pés pelas mãos. Senta-se no banco pra olhar de novo pra paisagem, mas, não sabe porque, a paisagem já não é a mesma. De repente, ele se dá conta de que, nesse tempo todo, essa mulher foi precisamente a única pessoa que enxergou naquele lugar o mesmo que ele e que, sim, isso é maravilhoso! Como é que eu não percebi isso antes? Ele atina que encontrar uma pessoa que veja o mesmo que ele, pode ser o que falta pra ajudá-lo a botar pra fora o que sente. Levanta-se e sai correndo na direção em que a mulher partiu. Alguém pra me ajudar a entender isso tudo! Pra me ajudar a explicar! Ele corre, corre mesmo, até suas pernas doerem. Mas não encontra nada. Ela já sumiu num dos muitos ônibus que deixam o Pão de açucar pra trás a cada instante. Arrependido, tem vontade de gritar: Volta! Volta! Desculpa…

Não adianta mais.

Cabisbaixo, ele volta. Senta-se no banco pra olhar de novo pra paisagem, mas, não sabe porque, a paisagem já não é a mesma. Ela parece um pouco triste agora.



posted by franciscoslade 12:47 AM