O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

27.7.03  

OLHA EU AQUI DE NOVO!

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A DISPLICÊNCIA DO TOQUE



Quando eu era adolescente, tinha a plena convicção de que era asqueroso. Talvez porque eu tivesse espinhas, talvez porque eu suasse muito. Talvez por causa dos óculos. Não sei; até já me indaguei se, de alguma forma, não teriam vindo do estranhamento que essa sensação me causava as tatuagens, os piercings; os dreads e cada um dos cortes estranhíssimos que eu já usei. Mas, enfim, deixo esse tipo de suposição pr’algum psicólogo e pro dia que eu voltar a fazer análise. O fato é que passei o final de minha adolescência acreditando que – e, de certa forma, cultivando essa crença – uma pessoa, principalmente uma garota, não teria por que querer encostar em mim. Por causa disso, sempre fui muito atento, mesmo muito sensível, ao toque. Imaginava que se alguém se dispussesse a travar contato físico com tão aversivo ser, devia ser por algum bom motivo; então era só uma mulher roçar levemente as coxas nas minhas num ônibus ou uma colega de sala me dar um abraço – ou um beijo, OH, um beijo! – que eu já me apaixonava. E, na verdade, isso era mais angustiante que agradável, pois ainda que houvesse algum interesse naquele ato, isso jamais me dava coragem suficiente pra tomar uma providência: eu não conseguia acreditar que fosse realmente possível que uma mulher visse algo naquele monstro que eu imaginava ser. Felizmente, logo depois as coisas seguiram o imutável roteiro da vida humana e, após ser praticamente atacado por aquela que viria a ser minha primeira namorada, pude relativizar meu complexo-de-monstro-da-lagoa-negra. Os hormônios, não digo que se acalmaram, mas se estabilizaram; as espinhas deram uma folga – se bem que, volta e meia, tem uma me visitando; e os óculos, esses deram lugar às lentes-de-contato ou a outros pares de óculos mais bonitos – Il signore Armani me ajuda muito nesse sentido. Sobretudo, muitas outras pequenas tiveram a bondade de corroborar com a opinião da minha primeira namorada e me convencer que eu até que era ajeitadinho. Por vezes tenho minhas dúvidas, mas aprendi que isso também é normal entre nós mortais.



DE QUALQUER MODO,



A tal hipersensibilidade ao toque permaneceu comigo. E acabou que eu nunca pude perceber direito que relação cada pessoa tem com o contato físico, que importância cada um dá a essa questão. Daí, outro dia, eu tava num show, tranqüilão, tentando supor o que dizia a letra que berrava o sujeito lá da banda e que tipo de música era aquela por sobre a qual ele berrava, quando, TÓIM!, tem uma bunda encostada na minha perna. Olho pro lado, e a dona dela tá conversando com uma amiga. Era um saia tão fininha, tão levinha… Meio encabulado, num arco reflexo, lá vou eu, Opa, desculpa, foi mal, como seu eu tivesse esbarrado. Nisso a menina, demora um pouco pra entender do que eu tô falando, Ah, não foi nada!, vira pra frente pra ver o show e, PUF!, tem um peito no meu braço. Ai, ai, ai… tão macio… Eu devia ficar me aproveitando da situação, mas, trinta segundos depois, estou tão envergonhado que é até bom quando o tal sujeito que se esgoelava anuncia que A gente vai dar uma paradinha pra cerveja, depois tem mais. Pois é. E teve outro dia, no ônibus – sempre o ônibus: sentei-me ao lado de uma moça. Tava pensando, Cacete, tô de novo atrasado, porra, eu vivo atrasado, e sempre sem grana, quando eu olho pro lado e descubro ali a mulher mais bonita que eu já vi na minha vida (depois da minha namorada, é claro!). Aimeudeus! Ela tá encostando em mim! Tava sentada de lado, meio apoiada nas ancas, olhando a janela, e encostava a outra nádega na minha perna. Ah, ela sabe que é linda, deve tá me sacaneando, só pode ser! Continuamos assim, na mesma posição, eu mal respirando, ela ou rindo por dentro ou sem sequer perceber o que se passava, até que eu tive que descer e ir trabalhar. Eu queria ter um pouco mais de coragem, pra chegar pra ela e perguntar se ela não tava sentindo aquilo; se era tortura mesmo ou se eu sou maluco, se isso tudo é muito normal, coisa do dia-a-dia e eu é que me acostumai a achar que significa algo tocar casualmente em outro ser humano. Mas, nada, eu só desci do ônibus.

Aí fico eu, mais uma vez, sem entender nada. Como é que a pessoa pode ser tão leviana com seu toque? Será só displicência? Isso só existe na minha cabeça? Será que gente normal nem repara nisso? Todo mundo tem consciência disso?

Não sei; não consigo chegar a uma conclusão.

Me sinto um incapaz nesse tipo de comunicação.



posted by franciscoslade 6:59 PM