O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

4.8.03  

DO SAMUEL



O ouriço ia atravessando a estrada, correndo pra chegar ao outro lado. Aí, nesse momento, foi que ele cruzou a minha vida. Coitadinho do bicho, nem tem uma casinha pra morar, um lugar quentinho, como eu tenho a minha cama - deve ter sido algo assim que eu pensei; já não me lembro muito bem. Eu era muito pequeno. Mas foi algo assim. Tanto que eu resolvi que ia ajudar o animal. Ali perto tinha um barraco onde a gente lá de casa guardava tudo que não precisava ser guardado. Peguei pelas patas o alvo da minha bondade e carreguei até o lugar com algo que era a minha idéia de cuidado. E que sorte!; tinha lá uma chapeleira velha, ainda meio forrada de um veludo um dia carmim. Era perfeita. Agora, que mais? Comida, penso ter calculado, porque saí e catei uns vermes pro ouriço agüentar enquanto se acostumava com seu novo lar. Joguei lá. Fui pra casa pensando na sorte que o bichinho teve em cruzar comigo, ali, no meio da estrada. Mudar a sua vida. Poderia sair pra caçar quando precisasse e, certamente, seria um conforto pra ele poder voltar pra chapeleira e pro barraco, ao abrigo da chuva e do frio. Que bom! Deitei a cabeça no travesseiro satisfeito comigo mesmo e dormi rápido, sorriso no rosto. Mas no dia seguinte, acordei estranho. Algo não tava certo e eu não sabia o quê. Só não parecia que o ouriço tinha tido tanta sorte ao cruzar comigo no fim de tarde. Senti-me mal. Talvez eu não devesse ter me metido - isso aí eu lembro de ter pensado, assim mesmo. Recordo o quanto evitei voltar naquele barraco. Quanto medo. Cada uma das desculpas que eu me dei até ter coragem pra ir lá. Lembro também do que encontrei, tá impresso em algum canto das minhas retinas até hoje. A papa. O mau cheiro. E o que eu mais lembro, o que eu não esqueço de jeito nenhum, como eu me senti ridículo!, foi me dar conta do azar que o bicho teve quando eu cruzei a sua vida naquele fim de tarde.



(Adaptado de um pequeno trecho de Companhia, do Beckett. Na verdade é quase uma transcrição. Ia até transcrever, mas aí pensei que, pra ter o trabalho de copiar, era mais fácil dar uma versão minha; pelo menos não ia ter que ficar copiando. Eu digito pessimamente e ia ser um custo sem alguém ditando. Recomendo o original e me desculpo pela preguiça - inclusive no texto.)



posted by franciscoslade 11:41 PM