O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

16.8.03  

FICO NA DÚVIDA...



... entre chamar esse post "O mundo todo cabe numa piscada d'olhos" ou "O mundo num piscar d'olhos". Talvez "O mundo está nos olhos de quem vê". "O mundo só existe enquanto seus olhos estão abertos". Ou qualquer outra figura de fundo cartesiano. Pobre Descartes; merecia coisa melhor. Enfim, é isso que eu tenho.



O MUNDO ACABA QUANDO FECHO OS OLHOS



Estava voltando depois de resolver uns assuntos no Recreio. Fim da tarde. Aquela luz meio âmbar própria da hora. Iluminando apenas uma das faces dos edifícios, projetando as sombras deles gradativamente maiores, até elas se fundirem numa só contra o céu roxo. Com o canto do olho, vi passar voando uma garça. Como a pista tava vazia, diminuí e me virei pra acompanhar seu vôo. Me veio à cabeça o Manoel de Barros lá, "O branco e a elegância devem muito à garça". Tenho que concordar. Sobretudo, tive naquele momento. Com um leve sorriso no rosto, daqueles que são por nada - e, assim, por tudo -, voltei a acelerar pensando que, por vezes, é realmente uma sorte morar no Rio de Janeiro. Continuei dirigindo, absorto na beleza que me proporcionava aquele resto de dia e no ruído constante e grave do motor, quando reparei lá na frente um sujeito pedindo carona. Tal era o efeito da paisagem sobre mim, que resolvi levar o cara. Tal o bom-humor que, mesmo ao ver que se tratava de um mendigo andrajoso, não mudei de idéia. Pelo contrário, o sorriso lá. Brigado, dotô. Tô indo ali, só até a Barra. Seguimos, sem mais, eu e meu novo companheiro de viagem. E nem seu cheiro me roubava ao rosto os lábios sutilmente esticados em satisfação. Minutos depois, naquela lagoa que tem no caminho, me impressionei, quero dizer, não é normal, tinha umas trezentas garças. Eu já vi muitas juntas, mas, assim, não é normal. Até duvidei do que via. Duvido, quando lembro. Vá lá, vamos dizer quarenta; é o razoável, mesmo um exagero. Mas eram trezentas. Abobalhado, as palavras tropeçando no sorriso - maior, ridiculamente maior -, eu disse a ele:

- Garça é um bicho bonito, né? - por absoluta falta de capacidade de articular algo melhor, mais apropriado ao absurdo que víamos [o sorriso fazendo tropeçarem as idéias]; só pra ter certeza que ele via também, que não era alucinação minha, que alguém dividia comigo aquilo que eu sabia que não merecia sozinho. A certeza de que pode acontecer, ali, pra qualquer um. - Bonito... Né?

- Isso presta não dotô, esse bicho; muito osso.

- ... - Tomei fôlego pra responder, mas a outra coisa, algo que imaginei que ele fosse dizer, ou que tivesse dito, porque, qualquer coisa que fosse, não importaria muito; na minha cabeça, já tava lá, seria só constatação. Demorei pra processar. Que diabos! Mas, porra, como é que ele pode pensar... Não, aí vi que ele não tinha pensado. Pelo contrário. Falava com conhecimento de causa. É. E eu nem podia dizer que ele tava errado. Quem pode? No lugar dele. Me achando um babaca. Fechei a boca e virei pra frente. Continuei dirigindo, em silêncio, um novo, um pouco diferente do anterior.

O sorriso, ficou lá trás. As garças levaram.





Baseado no relato do cineasta e meu amigo Sérgio Bernardes.



posted by franciscoslade 10:20 PM