O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

23.9.03  

'GUESS I LIKE TO STEAL



Ontem me disseram que um amigo meu ficou maluco; teve uma crise nervosa, pirou. Os bombeiros tiveram que entrar na casa dele pra levá-lo pro Pinel. Quebrô tudo dentro de casa, jogô tudo pela janela, continuou o cara que me contava. O violão, o computador. Agora tá lá.

– Mas cê acha que ele volta? – pergunto, eu, que pensando bem, sempre achei ele maluco. Ah, só podia ser!

– Acho sim.

Por que minha incredulidade? Vou ficando com pena do cara, eu gosto dele!, e nisso, como são as coisas, vou me apartando dele sem perceber. Vou achando que entendo quando condesço. De repente, ele lembra, não sei se pra mim ou pra si mesmo:

– Quebrou tudo, se machucou. Se perdeu na rua.

Daí, um estalo, e quase dá tempo de pensar, mas eu me lembro ainda em voz alta:

– Eu já tive um troço desses.

Já não tem mais sentido quando eu me pergunto se devia ter contado isso pra esse aí: não é nada demais, mas logo ele? Um pouco envergonhado, mas relaxo quando percebo que seu rosto conserva a mesma expressão, quase como se eu falasse de outra pessoa. Pra ter certeza, desperdiço:

– Foi quando eu era mais novo; a gente nem se conhecia.

Ele conta uma história, eu também. Mas será que o impressiona – como me impressiona – eu ter contado isso e ter perguntado "cê acha que ele volta?"? Se não, será por que ele acha que sou em exemplo de recuperação ou por que pensa que "Sempre achei ele maluco. Ah, só podia ser!"?



Mais tarde, o ônibus corria por aquele viaduto estranho que volta da Barra e eu olhava pela janela o mar e o céu – difícil dizer o que, na noite – meio embaçados pela neblina; lembrei dos tantos ácidos, como tudo parece estar logo ali, a um passo. Acho muito curioso pensar que tem gente que enlouquece com LSD; me parece justamente o contrário, se pode enxergar a coisa mais friamente, como se desse pra apontar que curva do caminho o sujeito tomou errada pra chegar ali... É perto, mas, se você vê isso, é porque não tá lá. Outra coisa que não entendo é gente que acha que pode resolver enlouquecer; é possivel olhar pra trás e saber como se poderia ter enlouquecido, saber que caminhos foram aqueles, saber mesmo que tipo de escolha nos pode levar por eles, tomar precauções; mas sempre pode haver um caminho novo e desconhecido pra loucura. Depois da próxima curva, como depois daquela que meu amigo tomou e que eu olho com algum destanciamento. Ao meu ver, não se pode escolher a loucura, pode-se sim tentar evitá-la, pra que ela não nos escolha. Mas nisso, somos mais pacientes que agentes: pode acontecer. Assim, o que eu via pela janela era bem mais assustador do que a consciência do LSD; eram a mesma coisa e ela tava a um passo, todavia, com a droga, eu podia enxergar o que era; e aquela massa negra, que é? Aquela lacuna? Se eu me afundo naquilo, dá pra sair? Fiquei tentando enxergar meu amigo naquilo. Não achei nada, mas sei que ele tá logo ali.



Quando eu era pequeno, furtava pequenas coisas em lojas. Às vezes em casas de outras crianças. Besteiras; armas de playmobil e capacete de lego – nunca o boneco inteiro – eram os preferidos. Uma moeda, um cotoco de lápis de cêra de cor estranha. Ou qualquer pequeza que me impressionasse, que me despertasse um sentimento estranho naquela situação, que me lembrasse algo ou que fosse me lembrar dali. Algumas vezes, minha mãe descobria. Quando não achava que era sem querer, brigava comigo. O que eu pensava, nunca disse a ela.



É, eu acho.





posted by franciscoslade 3:28 PM