O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

7.10.03  

... E TODO TIPO DE SUJEIRA



(ou 'Essa referência eu não me lembro de onde é')



Eu tava com fome. Mas era domingo e eu tenho esse velho hábito, irmão univitelino, de ficar triste aos domingos. O mais arraigado de todos, esse vício. Um amigo apareceu lá em casa pra dividir o fardo comigo – eu sei, eles também não o aprazem, os malditos. Pra mim é pior, mas ele tem o próprio quinhão desse dia gorduroso. [Sempre me perguntei: como pode ser gorduroso e rarefeito ao mesmo tempo? São duas palavras que não foram feitas pra se usar juntas. Devo estar fazendo algo errado.] E, como eu ia ter que comer antes de a segunda me achar, mesmo que já tivesse feito o sábado invadir ao máximo o dia com meu sono cínico, mesmo que já fosse quase noite, como eu ia mesmo ter que comer, perguntei se ele não queria me acompanhar. Acho que foi por falta do que fazer, mas ele aceitou. Botei meu prato pra esquentar – ele, sei lá por quê, resolveu comer o dele frio – e ficamos na cozinha vendo as horas escorrerem macilentas do relógio na parede. Minha comida ia queimar, hoje sei, mas eu não fazia a menor idéia ali. Lá pelas tantas, ele disse Que saco, domingo. Né? É – foi o máximo que eu desenvolvi. Minha comida ia queimar, mas eu não sabia. Que dia merda, meu amigo continuou, nada acontece nele, nunca. Mesmo quando acontece. Eu: É, cara, eu sei; e a gente vai boiando nele até acabar. Pra mim, não tem nada a ver com a segunda. Nada. Eu gosto da segunda: ela me livra dessa suspensão que é o domingo.



Aí ficou um silêncio. Acho que sabíamos que era a deixa pra algo. Acho que eu percebi que era pra fingir que não era e deixar passar. Minha comida ia queimar, mas eu não sabia. Contudo, antes de terminar de falar, acho que já sabia o que eu ia dizer. Saiu sozinho:

– Acho que todos os meus dias são domingos esperando uma segunda que nunca vem.

– Eu acho que você não devia ter dito isso. Putz, agora tô me sentindo péssimo.

É, não precisava. Não devia. Tava ali, mas era pra fingir que não vi, e deixar passar. Assim os dois poderiam ter ido dormir tranqüilos, fazendo de conta – principalmente pra si mesmos – que não tinham pensado nisso. Enxergado isso. Mas não, eu tive que nos roubar esse conforto. Agora tínhamos escutado. Pausa breve.

– Eu vou embora. Tenho que fazer umas coisas...

– Valeu. Depois a gente se fala... [quando não for domingo, era o que ficava subentendido. Se não for.]



Fiquei na cozinha mais um tempo, vendo a noite cair. Depois, iria descobrir que minha comida havia queimado. Dormir com fome. Mas, naquela hora, eu ainda não sabia.


posted by franciscoslade 2:19 AM