O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

27.10.03  

O EGOÍSTA



O menino solta pipa em cima do telhado. Lá no céu, o pedacinho vermelho manobra solto e, quanto mais o menino mexe com ele e tenta enganá-lo num movimento difícil, mais ele se mostra solto e contente, pois é pr'aquilo que ele é feito. Mais solto também se sente o menino, empinando tão longe aquele pouquinho que não é senão de si mesmo. No movimento mal-calculado de outro menino sobre outro telhado, o menino corta uma pipa. Ah, é a hora! Onde ela vai cair? Tão rápido tem que trazer sua própria pipa de volta, que quase não consegue; finalmente, ele desce o telhado. Resvala o joelho na ponta da calha deixando um tantinho de pele e sangue, mas ele não se importa: sabe que cada momento é precioso! Ele deve chegar na pipa cortada antes dos outros meninos. Segundos depois, já está na rua, correndo os pés descalços nos paralelepípedos do bairro. Enquanto vai, o sol o banha com zelo e se reflete em seus cabelos que o vento tenta, aflito, agarrar. E o menino, braços abertos, corre satisfeito, sentindo sobre o corpo e sob os pés o mundo a sua volta; as coisas, que lhe parecem grandes e grandiosas demais; aquela luz tão plena, como só a memória conhece; as pessoas, que lhe parecem bonitas demais. Boas demais. Tudo isso ele sente assim, nos poros, nos pulmões inflados ao máximo, nos olhos quase-fechados de sorrisso; um grande conforto de ser. Um sentimento de pertinência e uma certeza: tudo que importa é a pipa. Lhe parece possível correr infinitamente atrás da pipa derrubada, sem nunca parar. Não há cansaço; não há fome senão por existir ali, pra pegar a pipa, não importa onde. Ele não sabe, mas, um dia, ele não vai poder correr mais atrás da pipa; um dia, alguém vai lhe mostrar num espelho uma pessoa estranha. Um monstro!, talvez pense. Ou talvez digam. Vão lhe mostrar seus defeitos, suas fraquezas; mostrar que aquelas pedras podem machucar seus pés; que o sol pode esmagar-lhe contra chão; que suas pernas podem traí-lo, tropeçar uma na outra; que o fôlego pode faltar-lhe. Talvez aí as pessoas não lhe pareçam mais tão sorridentes. Talvez fechar os olhos contra o vento não lhe seja mais tão acolhedor. Vão, então, dizer-lhe que a pipa não existe. O menino não sabe, mas não poderá sentir-se novamente tão justificado e tão completo. Contudo, agora, nada disso importa. Ainda não. Agora ele pode carregar o calor do sol nos ombros, pequeno Atlas desavisado, e nada disso o impediria. O importante nem é a pipa; é correr atrás dela sem precisar parar, sentir a respiração rápida ecoar como único som dentro da cabeça; ter que tomar cuidado pra não sair voando por aí e perder a pequena armação de vareta e papel-seda de vista. O que conta é ter uma pipa atrás da qual ir estar correndo pra ela, nada mais.

Afinal, é pra isso que ele serve, o menino, pra ir até o fim do mundo buscar a pipa.


posted by franciscoslade 2:16 AM