O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

12.11.03  

CURTA-METRAGEM 2



CAFONA E IMATURO



Agora que tudo tá acabando, vejo que tem umas coisas que eu queria. Ainda. Mas eu acho que não vai dar, né? Por outro lado, tem muita coisa que eu descobri. Nem sei se eu queria, mas agora eu acho que também não vai dar pra esquecer. A camisa empapada... Você sabia que tinha tanto sangue dentro de uma pessoa? Dentro de você? Eu não. Nem que ele vai ficando marrom enquanto coagula, uma placa sobre a pele. Principalmente, eu não sabia que depois de tanto perder sangue eu ainda poderia estar vivo. É doce, de certa forma é doce sentir ódio depois de tanto tempo, tanto a ponto de as coisas acontecerem assim. Sentir, depois de tanto tempo. Nem que seja essa dor ridícula. arrrruuuuarrruuuu, desculpe, eu vou tentar não chorar. Ridícula. Parece coisa de criança, essa dor, algo visto e contado por criança. Só na infância se pode imaginar as coisas assim, absolutas. O doce é doce, arranha a garganta; a alegria é o que se guarda como referência pra palavra "satisfação", pelo resto da vida; a luz do sol não deixa sombras, nem nas frestas das coisas, nem nas das pessoas... Tudo absoluto, sem nuances, sem contraposição. arrrrrrruuuuuuuauuu, desculpe, e difícil não chorar segurando as tripas, perdão. Um dia, quando eu matei aquele cachorrinho, eu senti uma dor que achei, menino, ser a pior dor que alguém pode sentir no mundo. Pior do que quando eu quebrei o braço. Terrível: culpa. Mas hoje aprendi que não, há dor pior: essa mão que me revira as entranhas com raiva e consciência. É melhor eu sair daqui. Não quero acabar nessa lambança, meu sangue se misturando com o deles. [levanto. é foda. não achei que fosse conseguir. vou me arrastando pra fora. um gole] Uma boa hora pr'um gole. Aaahhhr É como sentir o demônio n'alma de novo. Maldito Álcool. Depois de tanto tempo, hoje de manhã foi ele quem me acordou, se espalhando pelo corpo como só ele faz, me pregando esse sorriso cínico no rosto, que mesmo agora. Maldito. E só o pior é que ele me desperta, o que fica a tanto custo preso no pedaço de carvão que costuma me bombear o sangue pelo corpo e pelas idéias – isso é, antes de eu perder todo o sangue. Quantas vezes ainda a palavra Sangue? Ele tem cheiro de ferro, o sangue. E tudo agora cheira a ferro e whisky. Sorte que não me acertaram a garrrafa... Preciso chegar do lado de fora. [assim que ganho a rua, a vejo. não imagino como diabos ela chegou aqui. ela é linda. vai ser uma pena] [ela grita. quando me alcança, já tá chorando. como menina. não diz nada, só chora. não há o que] Não faz isso. Assim eu não vou conseguir não chorar de novo. E eu não posso. Não posso morrer chorando na frente dela. Eu nem queria que ela tivesse aqui. Pra ver isso... É uma pena. [ela me abraça bem na hora em que desabo. com meu peso, acabo levando ela pro chão também. seria – é comico]

– Não chora.

– Não consigo.

– Por favor.

[Ela chora mais. Não dá. Choro também]

– Desculpe. – peço.

– ?

– Eu não queria chorar...

[aí ela me aperta contra o peito. ouço o bater apressado; ela não quer aceitar. me aperta tanto que me sufoca. falta ar]

Tudo bem, eu já ia morrer mesmo. Pelo menos não é o tiro que me leva. O cheiro dela é embriagante. Boa coisa pra se sentir, antes. É absoluto, como a dor. Só não me faz esquecer o ferro-whisky por que isso tá dentro de mim. Que triste vai ser quando ela resolver afrouxar o abraço e me olhar nos olhos de novo. É uma pena. Mas ela não vai saber mesmo; não tem como: o tiro já ia. De qualquer forma, eu não vou ver. Só queria um último gole. Antes. Mas não consigo mais pedir.



[desculpe.]





posted by franciscoslade 3:03 PM