O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




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Seu dinheiro de volta!

18.11.03  

CURTA-METRAGEM 3



CAFONIMATURO 2



Ela gosta de pedaços de canção e meias-palavras. Mistura todos, os pedaços, numa coisa só, que muda sempre que ela canta; começa num dos muitos fragmentos e, a partir daí, desenvolve o resto colando uns atrás dos outros como vai lhe parecendo familiar. Nunca repete a ordem. Volta e meia, soma outros pedacos, novos, ao bolo, e logo os perde ali no meio. Já as meias-palavras, ela não mistura: pode correr o risco de ser mais clara do que quer. Mas também sempre tem uma metade na ponta da lingüa. Pra ele, isso não faz muito sentido. Mas não tem problema, ele já se acostumou. Ele não gosta de conversar. Ela, que fala muito, mesmo sem nunca ser muito clara, nunca disse pra ele Eu te amo. Ele, que não fala nada, também não. Por isso, ela acha que ele não gosta muito dela, e sabe que, o que ele acha, ninguém sabe. Mas não importa muito – nem pra ele. Mesmo assim, sem ter dito, ela gosta muito dele. Amar, ela não sabe: é uma palavra inteira e nem pra si mesma ela chama assim. Mas gosta muito. Tanto que nesse dia ela resolveu pagar todas as dívidas dele.

Ela pega o taxi e vai ao armazém logo cedo. Acha incrível ter engarrafamento uma hora dessas. Onde já se viu?!, diz o motorista, mas ela não responde senão com um muxôxo. Lembra daquela música: Essa é ele quem gosta. Tem um piano, disso ela sabe, e começa. Tãdã-tãdã, tãdã-tãdã, tãdãdããã. Mas é uma música muito triste. Ela passa logo pra outra, mas dessa vez de propósito. Conforme os cacos de melodia se alternam, ela acha estranho; no começo ela via nele o sujeito mais sensacional do mundo. Quase não acreditava que ele se achava idiota. Depois passou a acreditar. Chegou mesmo a se perguntar se ele era de fato. Talvez seja – mas ela não consegue ver. Ainda o acha sensacional. O dia-a-dia é que torna isso normal. Se, quando se conheceram, ela sequer acreditava que ele – que diabos, alguém como ele! – pudesse querer ficar com ela, hoje toma isso como uma verdade. Uma vez se espantou ao se dar conta, mas não se espanta mais com o que ele diz. Admira, mas está habituada. Enquanto o taxi para, ela pensa que também nunca disse a ele. Nunca. Que ele diz coisas interessantes.

Paga o motorista. Sai do carro. Pro taxi não ter que fazer a volta, desceu ali mesmo e tem que andar um pouco. Se lembra daquele vestido vinho. Aquele. Era lindo. Caro, muito, só que quando ela olhou no espelho, na loja mesmo, teve certeza de que era o melhor vestido que já tinha tido. Já faz um bom tempo que ela não usa. Às vezes acha que talvez devesse ter usado mais ele, que ainda é muito bonito, mas que não sai do armário há tempos. Ela nunca mais colocou só pra se olhar no espelho, como antes.

Quando vira a esquina, vê alguém saindo do armazém. Demora um longo segundo pra entender que é ele.



Ela resolve dizer. Antes que. Algumas palavras inteiras. Contudo, quando ela olha, os olhos dele já estão opacos.





[continuação (?) de CAFONA E IMATURO, post do dia 12.11, semana passada]



Sei lá. Não era o que eu queria escrever. Mas agora eu tenho que dormir e vai ser isso mesmo. É engraçado que como eu não tenho controle sobre o que eu escrevo. Talvez eu não devesse postar hoje. Mas, enfim, deve fazer parte do laboratório. Lamento pelos que vêm hoje pela primeira vez. Azar. Quem sabe na próxima?


posted by franciscoslade 12:57 AM