O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









Livros publicados

Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

0




Para ler também

A menina no deserto
Recheio de quê?
Malandro é o gato
Prosa Caotica
Wry
Pariscope Blues
Encefalopsia
Suum cuique
moca
Verborrágica
bináriogeral
ainda ela
Natureza complicada
mundoestranho
Paralelos


Arquivos




This page is powered by Blogger.

















Seu dinheiro de volta!

14.11.03  

POST-COITUM



Não achou graça nem no trocadilho. Olhava pra ela, dormindo pesado ao seu lado. Ela-dormindo-pesado-ao-seu-lado parecia contente. Talvez estivesse mesmo. Via como, enquanto ela respirava tão delicadamente que mal se ouvia, era só a ligeira mudança na curva que de sua cintura passava pro quadril que denunciava vida naquele quarto. Nele, nada. Ora a curva parecia querer sumir, tender ao horizonte; ora, voltava a se acentuar no profundo vale entre as costelas e as ancas dela, deitada de lado, de costas pra ele. Ritmadamente, a vida naquele quarto; nele, nada. Pensou em acender um cigarro, pra que outras curvas, fumaça:. Mas não, desistiu. Um pouco triste. Achou que talvez pelo próprio corpo, que, embora jovem, definhava dia após dia em alguma cadeira por aí e que – não se movimentava ao respirar – não merecia o viço daquele outro ali, ao seu lado. Não. Não era esse o motivo. Não estava triste; antes vazio. Vazio. Comparava aquilo ao ímpeto de pouco antes; tanta vontade, força. Tanta determinação: um objetivo imediato e um foco. Raiva e também carinho. Sentia. Sentimentos e sentidos. A vida se resolvia naquele embate, em cada movimento, em cada ação de humilhação e adoração daquilo que parecia se elevar ao divino. Agora, nada. Vazio. Tanto, e em troca, ficara-lhe apenas lucidez. E lucidez é ainda pior que o nada. É o que nos faz vê-lo. Enxergou a si como uma bexiga de encher a que uma criança tivesse deixado escapar o ar após encher ao máximo. Brincadeira leviana; antes, vazio, com as outras bexigas no supermercado, não se sentia tão oco. Talvez estivesse, estava, mas não sabia. Teria preferido estourar. Quando estava cheio, o máximo!, POU! E lá se teria ido uma bola feliz. No entanto... De novo, cogitou o cigarro. Mas a fumaça também não iria encher a bola. Não de novo, depois de tão esticada.

Estava em casa. Mas sentiu vontade de ir embora antes que ela acordasse. Ou de ficar, e tentar de novo, e de novo, e ainda, até estourar. Não se decidia.

Estava em casa. Mas agora seu vazio não cabia mais naquela casa.

Foi embora. Pensado que, se pelo menos fosse um balão de gás, ...



***



[POST-SCRIPTUM: Será que eles estouram, lá no alto?]



posted by franciscoslade 1:59 PM