O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

22.11.03  

VEGETA



– VEM! MAIS UMA VEZ! – jab, jab, uppercut, direto-de-esquerda. No chão. Manda o outro pro chão, de novo. Arfa. O tórax se expande e retrái que se pode ver de longe. O suor ilumina-lhe a testa, ganha-lhe os contornos rígidos e angulosos do maxilar, alcança-lhe amargo a boca. Entre sal e enxofre: é como sente na lingüa. Ele gosta; exatamente o gosto que buscava. Exatamente. Esse suor não tem mais o sabor daquele que lhe alimentou no último mês; não, esse lhe sabe melhor na boca e na camisa empapada. Mesmo porque, ele sente, não sua pelo esforço físico: mal começou. O sol refletido na fronte úmida é só regojizo, satisfaçao escorrendo pelos poros. Pra isso ele socou parede e muro. E muita cara. É o que ele faz da vida. E o que faz melhor – que o resto das coisas que sabe fazer e, até pouco mais de um mês atrás, que todo mundo. Hoje, é pra saber se ainda é o mais forte que veio ao terreno baldio.

Lembra-se muito bem de quando perdeu pro cara. Será que o filhodaputa podia ser melhor do que ele? Simplesmente melhor? A luta tinha comecado bem; viu que o sujeito era bom. Mas ele já deitara outros bons; era o melhor. Todavia, logo começou a enxergar o imponderável: ia perder. Confirmava sua inesperada convicção a forma com que se invertia o fluxo do dinheiro na roda. Apostas pulavam de chapéu pra chapéu, correndo pro lado do outro. Já tinha enfrentado um mais forte. Um mais rápido. Mas nunca um melhor. Ele sempre os venceu. Não entendia porque, daquela vez, o cara não caia. E ele ia ficando cansado; além disso batia bem, o maldito, nos lugares certos e da forma certa. Ninguém melhor que ele mesmo pra saber disso. Aí, um cruzado devastador. Mais um. Caiu. Não pela primeira vez, mas pela primeira vez antes de ter certeza de que o adversário não se levantaria mais. Tinha acabado.

Dois dias depois, achou que não. Porque ele pensou muito; concluiu que esse negócio de mais forte não se mede assim. Só quando não se pode mais ir adiante: é o limite quem pode responder. Afinal, ele tinha observado o cara; podia superá-lo. Sabia que podia ir mais longe. Viu as brechas. Só que talvez a vida de vitórias o tivesse amolecido sorrateiramente. Agora, ele está agradecido ao homem ensangüentado que tenta se levantar pra apanhar mais. Sim, agradecido pelo sujeito ter lhe mostrado isso, ter lhe dado a oportunidade de evoluir. Expressa seus sentimentos com outro direto no rosto do adversário. Inconscientemente, a platéia se cala. [silêncio] O movimento exato, a base sólida, contrapeso, equlíbrio, a torção e impulso certos no quadril, a precisão. A plástica. A quem vê – a quem visse, mesmo um desavisado, uma senhora, pareceria uma pintura, uma esperança no divino; o soco perfeito. O auge de uma das muitas artes do homem. E ele sabe. É demais pro outro; desaba. Por hoje é só. [fim do silêncio] A audiência vibra, extasiada: mal-acredita.

Antes mesmo de ir pegar a grana, caminha até o outro. Cochicha:

– Viu?

– Se você não terminar isso agora, daqui a duas semanas eu tô aqui pra te arrebentar de novo! – cuspiu o derrotado, junto com um pedaço de dente amarelo.

– Eu sei.

– E nem vai ser pela grana! Se eu fosse tu...

– Eu sei. É isso mesmo que eu quero. E trata de se esforçar.



E foi, sorridente e já ansioso, buscar o que era seu.



***



[confesso que me diverti fazendo esse; foi como brincar de playmobil.]



posted by franciscoslade 3:01 AM