O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

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Seu dinheiro de volta!

27.1.04  

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Dá pra ver que eu acabei? Dá? Eu tô solto como eu não me lembro de ter estado alguma vez na minha vida. Não que eu não tenha estado, mas não lembro. Entende? Deixa pra lá. Mas, me vendo ir assim, por aí, fica claro? Que eu acabei? Ou só você, que me conhece, quando me conhece, aqui, no meio disso – no meio de mim, eu acho que posso dizer – é que percebe? Por exemplo: se eu for ali naquela esquina comprar o jornal, será que o cara da banca vai perceber? Porque eu não consigo ler nos olhos dele se ele lê o vazio dos meus. Sempre fui péssimo nisso. O pior. É foda. Depois, mesmo que ele, alguém, percebesse, isso ia fazer alguma diferença que pudesse ser vista na expressão, alguma diferença que fosse digna da mudança de um só traço do rosto de quem me vê? Sabe o que é?, é que depois que eu me dei conta que gente é tudo a mesma merda, incluindo aí eu, não sei mais o que falar. Me parece desperdício. Despropósito. Como se, ao me mostrar isso, alguém me tivesse desautorizado a ficar aqui falando as minhas baboseiras-sem-porquê. Muita gente já falou coisas bonitas e que deviam ser faladas e que foram importantes pra mim quando eu ouvi; mas eu me pergunto se algum dia essas pessoas acordaram e viram que todo mundo é igual. Ou se tiveram a sorte de continuar se acreditando diferentes. Ou ainda, se eram mesmo diferentes e isso foge à minha compreensão de gente-igual. Catzo. Muita gente já falou coisas bonitas e eu nem consigo mais separar um maldito dum parágrafo no meu pensamento, um do outro, esse do próximo. Sabe o que eu queria?, ás vezes eu queria que você viesse aqui e me arrebentasse a cara. Só pra ver se sinto alguma coisa, se eu ainda consigo; raiva de você ou dor – da cara quebrada. Não sei. Diz aí, quando eu venho de longe, na rua, me aproximando, quanto tempo você demora pra ver que eu tô precisando dormir, que eu tô precisando de endorfina, de adrenalina e que eu tô precisando sair daqui rápido? O problema é que entender isso, isso das pessoas, é o nada; e o nada dissolve um sujeito. Eu acho que devo ter pressentido isso, bem no começo, o nada. Daí comecei a sentir ódio, porque ódio mantém a mente afiada, as idéias andando juntas, alguma determinação. Mas o problema é que odiar é um paleativo; a estagnação dissolve os objetos do ódio e, sem foco, o troço acaba. Lá se vai a proteção, a casca. Sentir raiva de quê? Medo de quê? Aí, fudeu, acabo eu também.

Ah – e não é que eu consegui um parágrafo? – e não tem essa de amor. Porque o amor é muito absorvente; certamente, ele vence o nada, mas joga a gente numa espiral e acaba que você vive só pr'aquilo. Isso sabe quem já amou mesmo. Todo mundo por aí diz que ama. Até nisso é todo mundo igual. Mas, a cada momento que é preciso se provar o amor, escolher o amor, puf!, é a si mesma que a pessoa escolhe. Assim é fácil, isso aí não é amor não. É até fácil de sentir, mas também não resolve o nada. Eu tinha alguém assim. Ela dizia que me amava; eu não dizia nada. Porque eu sabia. E sabia que ela também não. Mas deixava ela acreditar, mesmo vendo que o que ela acreditava ser amor era exatamente o que eu sentia por ela. Talvez com um pouco mais de euforia. Talvez. Isso não muda nada; euforia é coisa da idade e quando o bicho pega, ela passa. Eu, que já tinha amado, sabia a diferença. Amar é que nem descer pelo ralo, porra! Tem como controlar não. É só ir. É cada vez mais pro fundo, até morrer afogado. Pior é que geralmente é descer o ralo sozinho; o outro fica lá em cima, te olhando escorrer, se fuder, sem entender nada. Pergunta assim: o que que tá acontecendo contigo? E fala, mas você não ouve; do ralo, só da pra ver a boca se mexendo, sem palavra. Sem nenhuma, muito menos a que você quer ouvir. E a outra pessoa lá, segura e seca, mesmo que ache que não tá. De vez em quando, até por isso, por também se acreditar já encharcada, ainda abre mais a torneira. E você, no ralo, acha bom, agradece por mais um pouco, sem sequer reparar que tá é indo mais rápido pro bueiro. Isso não me interessa não.

Mas, afinal, diz!, você percebe, que eu acabei? Não, é claro que não, que idiota. Eu. A vida é uma parede, é só isso. Principalmente uma parede que fica entre eu e você, seja você quem for. E, ainda que você não perceba – ou não se importe, ou ambas as coisas – entre você e outro você também. Pobre do imbecil que acredita que essa parede se quebra com palavras. É daqui, do outro lado, que te pergunto Você vê?. Claro que não. Que idéia, a minha.



[Em casos como esse eu não uso vírgula não.]



posted by franciscoslade 11:59 PM