O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Seu dinheiro de volta!

12.1.04  

A COISA MAIS RIDíCULA QUE EU



Quando eu era pequeno, fui ver O cão e a Raposa, aquele desenho da Disney que todo mundo conhece. Chorei como quase nunca na vida. Até hoje, se eu começo a lembrar. Não sei se vocês se lembram, mas vou resumir de quallquer jeito. O Cão e o Raposa – vou chamá-los assim, pois os nomes não me vêm e nem são importantes – se conhecem quando filhotes e se tornam muito amigos, como só nos desenhos da Disney e em raríssimos casos se pode tornar. A maioria das pessoas passa a vida sem saber o que é isso e, imagino, é o tipo de coisa da qual só sem total idéia no fim. Então, eles crescem e por razões da vida, acabam se distanciando. Passam pelas suas experiências pessoais de amadurecimento paralelamente, mas de formas diversas. o Raposa aprende a vida da floresta e o Cão, por sua vez, aprende a caçar, cada vez mais próximo do caçador que o alimenta. O futuro deles é como o Rio-de-Janeiro e eles acabam se encontrando, cada um deles senhor de sua função e, como tinha que ser, o cão caça a raposa. Desespero nos coraçõezinhos de todas aquelas criancinhas na sala escura – ou pelo menos no meu. Começa uma perseguição ferroz; o raposa é acuado e não entende que tanto ódio é aquele, rubro nos olhos do cão. Não há diálogo, mas ele continua tentando, cada vez mais ameçado, dentes que dilaceriam sua carne com facilidade trincando com afinco sempre mais próximos. O final é inevitável. Os latidos machucavam meus ouvidos. Mas eis que num acaso, surge um urso; a besta ataca o Cão por algum motivo e tá prestes a matá-lo. O Raposa, mesmo meio fudido, ataca o urso e, de alguma forma o animal cai – algo do gênero, mas deixa de ser uma ameaça, some. Os dois respiram aliviados. Na conversa que se segue, fica claro que eles não podem mais ser amigos. O Cão deixa o Raposa partir, mas não sem deixá-lo saber que, da próxima vez, o jogo segue até o final. Cada um segue o seu caminho e, que eu me lembre agora, termina o único filme da Disney com final triste. E eu chorando e perguntando pra minha mãe porque teve que ser daquele jeito.



Apesar das peuris figuras e artifícios de ilustração do discurso – até porque o público é pueril –, considero esse um grande filme, um filme inteligente. Mesmo em comparação com filmes 'de verdade'. Sim, eu chorei quando o pescoço de Selma estala tão alto que treme meu estômago em Dançando no escuro. Costumo dizer que é o filme mais triste sem animais que eu já vi. É um gracejo, eu sei – sou eu quem digo –, me referindo a esse tipo de mecanismo baixo (hoje tô demais com o itálico) com que a Disney arranca lágrimas doíííídas e sinceras das crianças, cujo expoente maior normalmente considerado é a morte da maldita Mãe-do-Bambi. Pois é, mas tem seu fundo de verdade, pois eu sempre penso n'O cão e a raposa. Acho mais triste. Tá, eu sou idiota, eu sei disso também.



Mas é um filme inteligente. Funciona mais ou menos como os bons ditados populares: o cara ouve, guarda e repete o troço a vida toda sabendo do que tá falando. Até que um dia ele aprende de verdade. É foda. Depois disso, toda vez que ouvir alguém falando aquilo da boca pra fora, vai pensar "essa pessoa não sabe o que tá dizendo".



Assim funciona O cão e a raposa pra mim. Quando eu vi o filme, chorei até secar porque eu achava que eles podiam ser amigos e que por não conseguirem ver isso não seriam. Depois de muito tempo entendi que não, o filme era triste porque eles não podiam mesmo ser amigos. E chorei, de novo.



Tá, tá, eu sei.


posted by franciscoslade 9:48 PM