O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Seu dinheiro de volta!

16.1.04  

HISTORINHA



(ou a lógica sempre tem seus dias)



Ele odiava histórias bobas. Lê-las. Piores são as em terceira pessoa, no pretérito em sua forma imperfeita, começadas em período simples. Mas é assim que a sua deve ser contada. Eu acho. E ele se achava um cara muito estranho – o que pra mim parece uma grande idiotice, visto que toda gente sabe que todo mundo é igualzinho. Mas era: um cara muito estranho. Não pelo que se achava estranho, claro. Nem sabia porque se achava estranho, é fato, mas desconfiava errado. Tinha a estranho expediente de se afastar de quem gostava e de quem gostava dele – coisas que, normamente, estão ligadas – e achava isso uma boa idéia. Algo assim: pensava poupar a gente com que se importava da sua presença. Parece que tinha sorte de não ir lá demasiado com a própria cara, pois, senão, que problema! Isso funcionava com um mecanismo peculiar em que ele achava que fazia um favor pros outros e, assim, se aproximar resultava em se afastar. Na verdade, não ficava muito chateado, não; como achava que era um ato de afeição, sentia-se recompensado. Uma vez lhe disseram que era medo. Chegou à conclusão de que era. Todavia, não das pessoas, mas de aborrecer ao outro consigo; odiava destruir as expectativas dos outros em relação a si. Um dia pensou que se pelo menos soubesse melhor o que esperar de si mesmo, talvez fosse mais fácil. Talvez, mas isso eu não sei. Queria poder parar de falar e fazer besteira; ou parar de achar que falava ou fazia tanta besteira. Parar de achar, porque achava muito. Tudo tinha muito detalhe e isso era muito chato. Inveja de quem misteriosamente não via aquele tipo de coisa. Ou pelo menos não em tudo. É. Então olhava sua enorme pedra, sempre disposta a sua frente, em seu caminho, entre ele e mundo, o depois. Respirava fundo e, as mãos espalmadas, voltava a empurar a coisa vida acima. Morro acima. Ia, ia e quando chegava quase lá no alto – de lugar de nenhum – a diaba da pedra pesava muito e lhe escapava à força. Via a pedra descer e ela não o esmagava. Depois, apenas se virava e a colocava de novo entre si e o espelho. E a empurrava de novo, esperando – burrice? – dessa vez lograr sucesso. Quem sabe? Ter ficado mais forte com o hábito; ou a pedra ter ficado mais leve, talvez gasta.

Quem sabe?



[e eu tinha me prometido parar de escrever esse tipo de besteira... Sísifo, realmente.]


posted by franciscoslade 10:23 PM