O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









Livros publicados

Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

0




Para ler também

A menina no deserto
Recheio de quê?
Malandro é o gato
Prosa Caotica
Wry
Pariscope Blues
Encefalopsia
Suum cuique
moca
Verborrágica
bináriogeral
ainda ela
Natureza complicada
mundoestranho
Paralelos


Arquivos




This page is powered by Blogger.

















Seu dinheiro de volta!

20.5.04  

REPETINDO SEM CUIDADO A PALAVRA DIA PELO TEXTO



A luz dolente me vem buscar os olhos entre pálpebras, cansaço e algo que um dia foi sono. Sonho não. Desde a infância. Tudo isso, atravessado, cede; o dia se abre. Sou tomado pelo único momento de sinceridade do ser humano – ou do dia, quem sabe? –, 3 ou 4 solitários segundos de quem acorda. Neles, é justo supôr, deve estar toda a pouca franqueza do mundo, alguma verdade, se há. E, nesse intervalo, nesse espasmo de tudo, onde me sobra apenas o meu mínimo ato, meus olhos só sabem procurar. Algo que nunca acharam,

que sequer advinham,

mas que, sozinhos,

inquietos,

procuram.



E o dia começa;

uma fome que não há

e a higiene que não limpa

nem o corpo

nem o ontem,

trazem de volta tudo

que quase se pôde fingir afogado

no dia anterior.

Qualquer sorte de espólio,

de mácula,

qualquer coisa que ficasse melhor guardada,

mas que a manhã vem cobrar,

na carne,

no espelho

e na memória.



Encerrou-se o prelúdio,

e a trama começa,

num ponto de ônibus,

na madrugada que esqueceu de ir embora de um canto de calçada,

no bar que ainda não abriu.

O dia me escorre pelos olhos,

por vezes deles,

lanhando pele, ânimo

e lealdade.



Eu escorro pelo dia.

De ônibus em ônibus,

carro, esquina.

Nota suja, mão gasta, olho turvo,

a ponto de não saber dizer

se o taxi que explode no túnel

é acidente

ou coágulo no fluxo das horas.

Escorro. Até me depositar

no mesmo ponto de onde me lancei nesse tolo precipício,

no mesmo buraco de calçada onde o tempo cisma em não passar,

no bar que já fechou

ou que nunca chegou a abrir.



Mas tudo ainda carece de sentido.



No fim do dia

pernas fatigadas

me levam pra uma casa

que não é minha.


posted by franciscoslade 7:49 PM