O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









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Seu dinheiro de volta!

12.5.04  

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O mesmo texto que tá lá no Blogautores essa semana. Só porque eu queria ter ele aqui comigo também. Mas não deixem de passar lá, porque, sinceramente, os outros textos são bem melhores.





A VIDA É CAFONA





Antes da história, precisamos das personagens. Primeiro, eu. Eu já não posso me explicar muito bem; inclusive, por favor relevem se eu virar ele e restar apenas a voz monocórdia das palavras narrando os fatos. É que, por vezes, eu sou só um olho, um que muda de ponto-de-vista sem perceber; de tempo. Um pouco como naqueles sonhos de infância em que nos vemos estranhamente de fora. Antes de o tempo levar isso também e já não nos vermos nos sonhos, de ângulo algum. Acho que a alguns isso acontece por falta de perspectiva, de vontade, mesmo bom senso; a mim, me parece apenas que eu me tenha tornado muito vil pros meus próprios sonhos. Mas, desculpem fugir do relato, esse é um assunto sobre olhos mesmo. Por último, e no entanto mais importante pra essa história, tem ela. O resto das personagens, penso que é interpretado todo pelas circunstâncias. Ou é só um jeito de ver as coisas.



Um balneário turístico. Eu estava na praia com alguns amigos. Todos jovens o suficiente pra ainda se acharem imunes à vida. Fumavam um pouco na manhã que doía os olhos refletida - ampliada, se quiserem - na areia. Alguém propôs os ácidos e as dunas. Pareceu bom. Cada um teve o quanto quis e o grupo tomou o caminho das dunas. A conversa corria animada e o dia perfeito. Tudo ajudava a pensar menos nela e eu ficava grato por isso. Mas os olhos de eu permaneciam fixos nela, pois sabiam que a menina viera numa circunstância peculiar; terminara o longo namoro já iam umas semanas e eles resolveram, ainda que tacitamente, que a viagem, se não chegava a ser uma tentativa de volta, podia ser uma oportunidade de um último bom momento pra guardarem um do outro; isso já valia a pena. E, na visão ingênua de eu, se tudo desse mesmo certo, quem sabe ela não voltasse? Quem sabe.



Mas tentava não demonstrar isso, não ficar ansioso, assim, era bom que o passeio fosse agradável. Além disso, a possibilidade concreta de aquela ser a última vez revestia toda a viagem de melancolia. Eu não gostava de açúcar em sucos, mas lembrava-se constantemente que um amigo dizia que os últimos goles eram sempre os mais doces. Nostalgia talvez seja um troço doce. Ou apenas uma memória amarga de um último gole doce. E eu sempre teve facilidade pra confundir tempo, pra sentir as coisas antes da hora; era isso que ele não queria; estar com ela tinha que ser mais forte que lembrar dela. Só pra não misturar sabores dessa vez.



O LSD era puro e bom. O mundo virou um filme. Tudo era impressionante. O esqueleto de cimento por cima do qual se equilibraram, o mato que corria feito um rio embaixo; as poças de água muito limpa no meio da areia, com improváveis plantinhas que deviam nascer e morrer no mesmo dia; a serpente de um verde metálico e ofuscante que deslizou numa dessas poças; escorregar de papelão nas dunas. Ela, beijar ela, estar com ela ali, dividindo aquela lembrança que acontecia diante dos olhos.



Finalmente chegaram à duna mais alta. Era - ou pareceu a eu - uma imponente montanha cinematográfica. O grupo subiu maravilhado até o topo da grande duna. Lá no alto, espantaram-se a olhar a mata que a areia comia dia a dia. Depois, cada um foi procurar sua diversão; uns davam saltos acrobáticos do topo da duna, outros tiravam fotos, os casais se beijavam e aproveitavam a onda das drogas. Havia uma depressão cavada próxima ao cume do monte de areia e eu puxou ela pra lá, onde poderiam ficar sós.



Se beijaram como no começo do namoro. Conversaram e riram juntos. Naquele momento, esqueceram que não estavam mais namorando; parecia que acabavam de se conhecer e que ainda tinham todo o relacionamento pela frente. Passados uns vinte minutos, estranharam não ouvir mais os amigos falando e brincando; resolveram subir pra ver se o resto do grupo tinha ido pra outra parte de duna e os esquecido ali.



Quando subiram, mais uma vez notou que tudo parecia um filme; porém o filme mudara: agora havia três homens armados, de bonés e óculos escuros; os amigos, rendidos e sentados em fila, abraçavam os joelhos e tinham expressões amedrontadas. Tudo acontecia muito rápido e eu não entendeu quando um dos homens veio gritando e apontando a arma pra ele:



- Nem pensa, pleibói, deita aí, filhodaputa!



Eu e ela deitaram perpendiculares, os rostos próximos; o homem apoiou a perna sobre as costas dele. O sujeito estava claramente trincado e sacudia freneticamente a arma próxima à cabeça de eu. Gritava muito e estava nervoso:



- Caralho, já falei, s’eu não encontrá a grana, vô deitá um aqui! Tô falando, vô deixá um estirado aqui! Entrega logo essa porra!



Eu começou a perceber a situação, sempre como um filme; num quadro, todos os amigos olhando pra ele, com medo; noutro, o bandido que balançava a arma sobre sua cabeça e ele deitado ali, separado do grupo, servindo de exemplo; ela soluçando baixinho vigiando o movimento da arma; então o interior da única mochila, onde apenas a garrafa d’água e uma camisa velha. O tempo se liquefez e trouxe-lhe à mente outras cenas: o bandido abrindo o mochila; todos os seus amigos apenas de bermuda, a grana que não existia, a arma disparando e cuspindo seus miolos sobre a cara dela.



- Porra, cês num tão acreditando, vô estorá esse aqui!



Estranhou que não estivesse com medo, e achou que talvez fosse pela droga, mas não via por que ter medo se nesse momento nada podia fazer a não ser observar a situação e esperar. De que adiantaria ficar nervoso? Enxergava, ao mesmo tempo, o interior escuro do cano da arma, que dançava no canto de sua visão e, de longe, ele mesmo ali, deitado próximo a ela, pelos olhos dos amigos.



De repente teve uma idéia que talvez fosse egoísta; era algo que sempre quis fazer e que parecia justo à sua paixão, mas também um peso que descarregaria sobre os ombros dela, junto com seus miolos. Pesou uma última vez sua decisão e se devia ou não ser mais generoso; chegou à conclusão de que queria mesmo que a viagem fosse inesquecível e de que o que ia dizer era, afinal de contas, verdade. Depois, ele talvez fosse morrer ali… A olhou fundo nos olhos, bem de perto e sério como quase nunca:



- Se eu morrer, quero que você se lembre pra sempre que eu te amo. Você é a única mulher que eu já amei na vida.



Ela começa a chorar copiosamente, Moço, não faz isso, por favor!, por favor! Ele sabe que, não importava que acontecesse agora, ela nunca esqueceria esse dia. Era o que eu queria.

Eu sorri satisfeito: o resto da história não importava mais.



posted by franciscoslade 3:55 PM