O cara que escreve aqui se chama Francisco Slade. Um cara aí. Se quiser falar com ele, é só clicar no nome. E, sim, Slade é nome mesmo.









Livros publicados

Esse é meu primeiro romance, Domingo.




Também tô na antologia Paralelos:

0




Para ler também

A menina no deserto
Recheio de quê?
Malandro é o gato
Prosa Caotica
Wry
Pariscope Blues
Encefalopsia
Suum cuique
moca
Verborrágica
bináriogeral
ainda ela
Natureza complicada
mundoestranho
Paralelos


Arquivos




This page is powered by Blogger.

















Seu dinheiro de volta!

6.11.04  

TEXTURA.



Começou num ônibus quer dizer que acordou, não, acordou não é bem certo, abriu os olhos e tava ali no ônibus: o antes, depois chegou, em goles, mas já lembrança. não digo que só, mas só lembrança. Ainda faltava pra secar em passado, endurecer – tudo mudança de estado, sabe? E, de todo jeito, tudo ali nada explicava. Pois bem, num ônibus; cheio; um que, ele sabia, ia e voltava pela mesma rua, só a palavra indicava o destino. Mas não escolheu nenhum, isso nem lembrava. Tava ali, como se tivesse optado por um dos trajetos – pois pensou que o destino, afinal, é só o mesmo, sempre –, e também uma pessoa que se dizia sua família. Quem sabe. Depois sumiu, sem deixar maior prova de nada muito menos do porquê do ônibus. Carregava um copo. Só por isso, bebeu o álcool forte e não atinado. Mas era pouco mais que o fundo e mesmo assim percebeu-se bêbado, o tempo todo. Isso, o que tinha na memória também não esclarecia. Sozinho agora, tava sentado, o copo cadê? Pela janela, viu outro percurso, muito diferente daqueles dois, que recordou-se conhecer. E longo. O coletivo avançava sempre, desenvolto resoluto, por cidade e mais cidade no que sabia sua cidade, e que, no entanto, não reconhecia pelo vidro. Ameaçava amanhecer. Ao lado da pista, um declive, terra; do outro lado, dentre os dentes coloridos da encosta, uma casa branca ardia e se desfazia ao vento numa grande espiral de fumaça. Muito cinza. Pensou em fugir à ânsia angústia da descrição – ah, a vaidade... –, mas cedeu ao céu de tons róseos desconhecidos, à nitidez que sua visão adquirira ao dividir o mundo à distância. A torre de fumaça ganhou corpo copa, depois se partiu, corte transversal, cabeça que se separava; e entre as partes, como fios de saliva na boca que se abre em alguma avidez, várias colunas de fumaça rodopiante criaram um espetáculo improvável. Mesmo impossível. Veio uma ladeira. Por qualquer motivo, achou que se aproximava o ponto final. Perguntou ao motorista e ao trocador – talvez tenha perguntado aos outros passageiros? –, mas bêbado como era, achou que não se fazia entender; ouvia a língua enrolar saliva estalar lenta. Curioso é que, embora não entedesse o quê, falava bem, claramente – eu ouvi. O que não entendia mesmo era o que lhe respondiam e que soava numa língua perfeitamente estrurada, mas não a sua – e nem a minha, pois que também a ouvi. Decidiu esperar e tomar o mesmo carro no caminho de volta.

Talvez funcione.















Tudo mudança de estado, sabe? Então textura.


posted by franciscoslade 2:32 PM